Barris de Palavras

 


Barris de Palavras

 

Houve um tempo distante, mas muito distante mesmo, no qual era permitido um ambiente destinado exclusivamente para leitura, estudo e pesquisa, mantido pelo poder público até meados de 2023. Foi no final dessa quadra que ele foi, para alguns, obscurantizado, já para outros, salvaguardado e clareado belas bênçãos de novos tempos que trouxeram uma enorme ‘’desideologização’’; oh! Maldito divino Barris de Palavras.

 

Eu, mais ou menos jovem naqueles tempos de imaturidade que a alienação intelectiva me proporcionava, visitava o perigoso local achando que era inofensivo, como uma estratégia de refúgio da indústria de bens culturais de massa, a qual era minha suposta inimiga. O autoexílio era necessário para melhor me concentrar nas minhas desconcentradas leituras.


Achava, deslumbrado que estava com as coisas que aprendia no meio dos Barris de palavras, que aqueles estudantes das escolas públicas que perambulavam pelos corredores do recinto, despreocupados e indiferentes em sua maioria com os arquivos científicos e históricos lá contidos, estavam desperdiçando seus tempos vagos do horário escolar, cuja probabilidade grande de assim estarem deveria ser pela vacância fixa do horário de aula, natural nas escolas públicas daquela época.


Para eles, acometidos por um ensino público deficitário e assaltados pelo discurso dominante da meritocracia, tal ambiente era um espaço de convivência e entretenimento, às vezes até para a promoção de uma prévia da esbórnia que se concretizaria na praça localizada a alguns metros.


Lá, assim como na praça da tentação, eles se perdiam nos corredores do espaço das Palavras, utilizando-as de modo vil, reduzindo-as para o calão mais baixo. Onde era para estudar, enamorar era mais gostoso. Se ali o silêncio era primordial, eles urravam perto das salas.


Afinal, qual jovem, no auge de sua energia libidinal, iria resistir àquele paraíso de serenidade, adornado pelas imensas copas das árvores, que sombreavam o cenário perfeito para os corpos se encostarem? Depois eles estudavam. Primeiro, o prazer na biblioteca, realizado de modo mais ‘’recatado’’, em seguida extremavam as preliminares para um amor mais intenso e agudo na praça.


Eu observava atento e com modos antipáticos. Os livros nos fazem deslumbrados e pseudocríticos, pseudomoralistas... Como se eu não quisesse enamorar embaixo daquela linda copa também.

Sem dúvida, eu me encontrava meduzado pelas inúteis “críticas da razão pura”. Cantilena barata. Tanto estudo quase me manteve na cegueira que o ensaio ensaiava, no caos do deserto mental em que me enveredei pelos sertões que uma ideologia pode causar. E haja machado para desenraizar o mal que as raízes do conhecimento podem provocar nos Assis da vida.


   Os livros possuem essa capacidade corruptiva de quererem ter a pretensão de nos libertar, como se       estivéssemos presos, com a escusa e nebulosa intenção de tumultuar o meio social por de trás da erudição das palavras.

Todavia, graças a Deus, que está acima de tudo e todos e ao lado da maioria, esses tempos fazem parte do passado distante. Onde as relações humanas e processos históricos eram incrivelmente tratados como objeto científico, como matéria, como profissão séria.


Apesar de escrever me escondendo, não tenho saudades desse tempo em que a corrupção e liberdade desmedida imperavam, gerando libertinagem e balbúrdia. Tempos sem rédeas que foi preciso a rigidez de um bom cocheiro, daqueles que as mantêm na curta distância para a direção ser assegurada. Foi com ele que também tivemos boa obra, apesar da ousadia da quadra das Palavras. Graças ao nosso Messias a realização absoluta do imperialismo americano começou seu curso.


Nossos Barris de Palavras, assim como nossos barris de petróleo nacional, foram negociados, para evitar agitadores e corruptores. A tal biblioteca, primeiramente, foi corretamente esgarçada pela benção da privatização, tendo sido mantido apenas dois elementos principais no seu interior para o funcionamento da sociedade: os conteúdos de exatas, pois nosso país carecia de engenheiros na época, e a classe média, que podia pagar para ingressar no espaço de estudo de cálculos e era capaz de domar a fúria dos pobres, em favor do Estado/Metrópole.


Enfim, a antiga biblioteca foi aos poucos substituída por um templo de doutrinação cívica eurocentrista, voltada para conscientização de crianças em idade pré-escolar. Futuros soldados da metrópole do território.


Não é mentira que perdemos um pouco do poder de arbítrio e do repertório cultural que tínhamos, mas a ordem foi, enfim, mantida no nosso país. E cá estou eu hoje, escrevendo esse texto na minha página da web, a qual se transformou, excetuando as páginas do governo, em uma espécie de Deep web daqueles tempos, monitoradíssima por aqueles chamados de milicianos virtuais no passado, institucionalizados agora pelo nosso Messias.

 Escrevo sabendo que posso pagar por instigar a curiosidade de jovens que não viveram a época em que  as palavras unidas eram pesadas, sólidas e valiosas como Barris de ouro, e se aqueles jovens apaixonados da praça tivessem dado atenção ao peso que tinha nos pilares daquela estrutura que protegia suas intimidades, os governantes estariam desprotegidos num Barril de pólvora.

 


P. G. S, 12/01/2075

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