Curiosidade mórbida
Acordei com uma mórbida curiosidade. Não sei bem por
que a tenho, sabendo, ou melhor, supondo com certa exatidão científico-religiosa
o que me espera do outro lado caso resolva seguir por tal caminho. Mas tendo-a,
fui buscar matá-la nas referências do ato em certas melodias e vocais. Jovens,
talentosos, vencedores, realizados profissionalmente, amorosamente e
financeiramente, que superaram tudo até o fim da vida e, talvez, essa seja a
principal diferença de tais suicidas em relação a mim. Enfim, escutei-os
repetidas vezes e nada de ter matado a minha mórbida curiosidade.
‘’Por que vocês fizeram isso? Será que é vantajoso?
Tantos fãs, discos vendidos, celebrizados como ícones de um gênero musical... ’’,
pensava enquanto escutava suas músicas. Estas eram tão viciantes quanto a
insistente curiosidade mórbida, porque simplesmente eu não encontrava uma
resposta dos seus atos finais nas poéticas letras e melódicos arranjos,
fazendo-a aumentar a cada música. Escutei, como disse, repetidas vezes as mesmas
músicas e elas não me enjoavam; intrigavam-me. Empossavam-me os olhos de lágrimas,
por isso eu respirava fundo para não piscar, evitando que escorressem pelo
rosto e o choro se concretizasse. Precisava encontrar uma solidez psicológica
para examinar, nas letras e melodias, algum enigma capaz de justificar o
holocausto de suas próprias existências, e, desvendando tal enigma, tornaria a
minha decisão futura mais legítima à minha consciência.
A curiosidade era enorme, admito. Se eu encontrasse
alguma similaridade de razões deles com as minhas, teria base, inspiração,
motivo e condições poéticas para realizar a minha tragicidade, afinal, a
coincidência de motivos de um desconhecido com a de ícones seria um critério
legitimador. São referências no ato! Viraram lendas, mais pelo que construíram
do que pelo que destruíram, eu sei, mas viraram também pelo fim do show. Quais
eram suas razões? Em dado momento, enquanto escutava uma das músicas pela centésima
vez consecutiva, consegui matar... a minha morbidez.
Quando se entrega a uma coletividade o que não se
cultiva individualmente e intimamente, a frustração é enorme. Não se tratavam
de apenas referências trágicas, mas também em ‘’viver intensamente’’. As
composições eram estupidamente alegres, letras profundamente poéticas,
expressões letradas do mais puro amor. Saíam dos seus âmagos, porém, eles não os
conheciam e dispensavam o que cantavam. Agora eu entendi a razão de pensar em
desistir do meu holocausto particular, preciso ouvir mais atentamente os meus
bons conselhos que exprimo a conhecidos e desconhecidos através das palavras; é
preciso apresentar-me ao meu âmago e beber da minha própria fonte; Não quero
que ninguém me leia e releia repetidas vezes.
Pedro Guimarães, 23 de setembro de 2020.

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