Drama de um sábio
O sábio coerente que culpava a si, seus outros ‘’eus’’ e ao próximo mostrou que não estava de graça. Foi subestimado pelos próximos do mesmo modo que seu espelho: ‘‘Não é capaz porque não admite a dor’’, reproduzia isso aos amigos também. Sempre sábio, principalmente quando duplicava de personalidade e se tornava mártires e outros sábios, potencializando a sabedoria; nem sempre, porém, coerente: primeiro autoflagelou-se para se acostumar com a dor intermitente, depois buscou a permanente. Tudo é hábito e necessidade, e é aí que uma inteligência vulgar pode virar sábio ouvindo vozes de Friedrich Nietzsche; o indiferente se torna atencioso por precisar visitar o sábio no hospital quando este tem a receber um quinhão e o coerente sem perspectiva, um incoerente sem amor à vida.
Não estava de graça. Escolheu um andar próprio para
filosofar, precisava de uma última boa vista para desbotar a desgraça interior,
abriu a cortina, arreganhou a janela, subiu no parapeito e, dizem, iniciou uma
dialética com o firmamento. Sábio de essência, ele concluiu que o ocaso
defronte estava prometendo tragá-lo ao se esvair, mas não. O crepúsculo chegava
na medida que a sua desgraça aumentava, e, de repente, mergulhou no ar. O ocaso
não protegeu o sábio, mas, sim, o acaso. Esqueci, ele era agnóstico.
Sobreviveu à queda. Nada de ‘’novo Gilles Deleuze’’. Dizem
que ele pensou no francês, mas isso não passa de especulação. Os amigos mais
próximos não duvidam, porque aquele homem era obcecado pela posteridade, por
uma estátua. Dizem por aí que ele desejava que o dissecassem após a morte para que
seu cérebro fosse estudado, porém não podemos considerar isso como uma
excrescência do seu lado egóico.
O sábio só queria que seus soluços fossem escutados. Queria
a impossível missão que seus descendentes ajudassem a entender o que ele não
conseguia. A sua sabedoria pesava n’alma, cada vez mais sábio e
consequentemente mais assustador aos outros. ‘’Para me entender’’, dizia, ‘’só
silenciando minha voz e estudando meu cérebro, assim ninguém se assusta mais.
Fiquem com meu quinhão, não quero sua visita neste lugar, porque só agora tenho
algo que implorei por anos? Fico com minhas vozes só para mim, que serão congeladas
e impressas numa estátua no futuro, enquanto vocês estudam seus corações
petrificados, desamorosos, com seus cérebros racionais, mas escassos de
sabedoria e, principalmente, sentimento’’.
Dizem por aí que o sábio parou de culpar a si, ao próximo e
aos seus ‘’eus’’; a vítima da vez passou a ser o ocaso.
Pedro.

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