Filantropia de um megalomaníaco
Nem digo que ‘’subentende-se que... ’’, porque a significação de Filantropia é escancarada, sem complexidade, de domínio público e vulgar mesmo: abnegação, desinteresse pessoal, impessoalidade e, sobretudo, beneficência, são alguns predicados que se lhe coadunam claramente. E eu tinha um amigo ‘’egocentricamente’’ filantrópico, insanamente beneficente e, pasmem, com um tino social excessivamente megalomaníaco. Estava óbvio; o ‘’pasmem’’ foi só para dar um refino.
O mentecapto magricela chamava-se Claudêncio, porém poderia ser também, tranquilamente, o ‘’novo Quincas Borba’’; é, realmente, ele lembrava muito o Quincas Borba do grande autor de Livramento, com a diferença que o Borba era demasiado complexo em sua filosofia ‘’humanística’’; já Claudêncio, não obstante à sua surpreendente capacidade súbita de raciocínio, era superficial demais para desenvolver filosofias complexas como fizera o personagem de Machado, mas era muito mais humanista do que aquela filosofia. Tratava-se de um imediatista e sonhador, superficial e psiquicamente confuso. Todavia, confesso, era incrível acompanhar seu senso filantrópico, futurismo fantástico e empatia humana e animal. A loucura e a autoimagem de super-homem unem essas duas criaturas; a superficialidade as separa.
Antes de começar a me relacionar firmemente com uma moçoila
do subúrbio de Salvador, ele foi meu melhor amigo. Depois, vieram às
implicâncias do varrido Claudêncio, que teimava em disputar à minha atenção com
uma criatura que tinha lábios carnudos, olhar penetrante e um violão decalcado
no quadril. Pouco doido? Teve um dia que
ele me indagou, fazendo com que iniciássemos mais um debate...
- Pedroca... Por que você começou a ‘’namorar sério’’?
- Porque eu quis.
- E os projetos sociais? A gente vai mudar o mundo, temos
potencial. Você fica se prendendo a uma mulher...Mulher é substituível! Vamos
mudar o mundo!
- Eu gosto dela e não sou o Hércules.
- Tem um monte de gente precisando da nossa ajuda, mas você
prefere ficar na inércia... Podemos começar com um projeto social, depois
adentramos na política e, no futuro, você poderá ser meu vice no poder
executivo federal...
-Acorde! Cuide-se! Olha à sua vida, você tem muitos
problemas, como quer cuidar dos outros se não cuida de si? Por que não voltar a
fazer o acompanhamento psicológico? E os remédios que você dispensou? Você está
muito negligente com sua saúde.
- Cuidarei de mim ajudando o próximo. Quero ser reconhecido. Vejo tantos ignorantes vencendo por aí, e eu tenho plena consciência de que eles não têm metade da minha capacidade.
Às vezes eu queria lhe apontar a arrogância, porque ele era
de fato, mas evitava para que nova e enfadonha palestra não recomeçasse. Mas
aponto e pontuo também que ele era incrivelmente simples e materialmente tão
desprendido que usava roupas encontradas no lixão da esquina, localizado em
frente à casa de ‘’Seu Joel’’; além de insistir que, ao usar roupas decrépitas,
exalantes de toxinas fisiológicas do ser humano e viradas ao avesso, estava
enfrentando o sistema neoliberal. Ele não se importava consigo, porém,
paradoxalmente, importava-se com seu ‘’eu’’. Ser útil aos mais frágeis, doar-se
e mortificar-se para auxiliar aos que viviam na mendicância continha, além de
genuíno humanismo, doses cavalares de personalismo e vanglória no recôndito da
sua alma. Claudêncio tentava, mas era péssimo nos disfarces.
Congregando a essa particularidade das ideias fixas, contraculturais e completamente epidérmicas, haja vista que queria mudar o mundo de fora para dentro, ele era meticuloso e assertivo em apontar tantos os defeitos quanto às potencialidades alheias; talento inato, confesso. Do mesmo modo que conseguia colocar qualquer pessoa no cimo de uma montanha, dando-lhes exaltações dos atributos e exagerações nos elogios, arremessava-a ao calabouço com seus comentários cruéis e disparatados, um verdadeiro inquisidor, transloucado e incoerente. Agora, ai de mim em mostrar-lhe um espelho...
O doido flutuava entre o humanismo para com o próximo e o
desamor para si, da abnegação material à possessividade com aqueles que lhe
eram caros; do altruísmo ao exclusivismo; assim como entre a superficialidade
política e a transcendentalidade espiritual. Sim, ele era transcendental a
ponto de conversar com cães abandonados. Um dia, avistei-o deitado na calçada, impedindo
o trânsito dos pedestres, com a cabeça recostada sobre o dorso de um canino, em
meio a mais uns dez à sua volta. Vi aquilo e, assustado, inquiri:
-O que você tá fazendo aí, Claudêncio? As pessoas estão
olhando e...
- Cale-se. Estou ouvindo a história de vida dessa sapequinha aqui - disse apontando para uma cadela de pelagem caramelada - Ela disse que foi abandonada e maltratada por aquele dono da oficina que fica na ladeira que dá pra praça. Ele vai se vir comigo!
E era assim que Claudêncio seguia sua jornada. Ora me
procurava para falar sobre seus projetos sociais e políticos voltados a pessoas
carentes, ora desaparecia; e o motivo do sumiço era sempre o mesmo: prosar com os
caninos da rua ou com os mendigos que padeciam de doenças mentais. Homem culto
que era, personalidade firme que tinha, não ouvia conselhos de ninguém que
estivesse com a mente sã, justamente para que à sua realidade não fosse
descerrada sob suas vistas. Detestava os alvitres sensatos e realistas que lhe
pediam ‘’pés no chão’’ e ‘’ cuide de si’’.
Ele não cuidava nem pisava. A sua vigorosa energia, dada a tal transcendentalidade espiritual que tinha, ficava cada vez mais densa com o passar do tempo; as pessoas sãs se afastavam e o temiam. Claudêncio não levava a situação a sério; pelo contrário, alimentava a loucura e mantinha-se indiferente e odioso para com estes. As reiteradas queixas que fazia da sua própria vida, a contumaz fixação pelos tais ‘’projetos’’, a obsessão por uma excentricidade estética e insistência em filosofias imediatistas, descabidas e revolucionárias acabavam cansando a todos. Sua mente, apesar de brilhante, era um turbilhão que atingia não só ao coletivo próximo, mas a ele próprio. Incisivo, repetitivo, crítico com o próximo e indulgente para consigo, tenaz, sofista, humano, honesto, hipócrita, cruel... Um recorte de facetas incongruentes e um amálgama de problemas que se escondiam no ‘’olhar para o outro’’ como uma fuga da sua realidade interior. Falava aos seus amigos, mas não os ouvia. Todavia, com os loucos e os irracionais de quatro patas, a coisa era diferente; ele os levava a sério.
Eu estava ouvindo um rock pesado em minha residência quando
a campainha tocou. Ao abrir a porta, vi um verdadeiro filme de terror defronte
a mim. Claudêncio estava ensanguentado, com a roupa rasgada e inúmeros
‘’meandros de rato’’ em sua cabeça, como se fazem com os calouros na
universidade; admito que o caso dele estava pendendo mais para as punições de
detentos no presídio. Gaguejando, perguntei:
-Q...Q...Que aconteceu, Claudêncio?
- Os cães me atacaram na rua... Eles não suportam mais à
minha presença. Nossa comunicação telepática não mais é possível. Eu consegui
ler o pensamento da sapequinha, e ela disse que prefere os carrapatos sanguessugas
a ficar na minha casa. Disse que o chão da rua é mais limpo do que a camada de
miasmas que escondem o piso do meu quarto.
- E quem fez isso em seu cabelo? Está horrível! Sua cabeça
está ensanguentada também, minha nossa! Aposto que foram aqueles doidos da
praça. Sempre lhe alertei que...
- Cortei meu cabelo ontem e achei que ficou ótimo, bem alternativo. Detesto ser igual aos outros, você bem sabe. Aqueles doidos não valem nada mesmo. Fui contar-lhes o meu mais novo projeto social, que tem tudo para se espraiar para todo país num próximo futuro, e os doidos me atiraram pedras, e uma delas atingiu minha cabeça. É brincadeira? Estou realmente espantado. Malucos! Merecem morrer na miséria! Ainda disseram que sou doido... Ficaram com os olhos saltados enquanto fitavam meu cabelo. Imbecis! –bradou furioso.
Claudêncio teve que amputar dois dedos da mão esquerda
devido aos ferimentos que, justamente por não terem tido os cuidados
necessários, gangrenaram; a sapequinha não era vacinada. Partes do seu couro
cabeludo atingidas pelas pedras dos doidos estavam ‘’peladas’’, e por isso
suas madeixas, que sempre foram motivo de vaidade por sua parte, não cresciam nesses
locais lesionados.
Diante da surpreendente resposta que obteve dos únicos da
terra que ele realmente levava a sério e, principalmente, das sequelas e
bizarras crateras na cabeça, Claudêncio me procurou, certo domingo, para falar
do seu mais novo projeto, que seria estritamente pessoal. Mostrava-se disposto
a cuidar de si. Fiquei empolgado e retorqui:
- Graças a Deus está pensando em você, Claudêncio! Antes
tarde do que nunca, meu amigo. Que projeto é esse? Se eu puder ajudar...
- Desejo fazer um implante capilar!
- Fantástico! Fazendo isso, irá se sentir mais confiante
para retornar à faculdade e procurar um emprego. Cuidando de si, que maravi...
Interrompendo-me, explicou:
- Irei preencher essas lacunas bizarras na cabeça, melhorar
minha aparência para retomar aqueles projetos. Preciso estar com a
‘’cabeça boa’’ para mudar o mundo.
Pedro Guimarães, 4 de junho de 2020.

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