Fotografia
Fotografias.
Estou tentando e continuarei até conseguir me libertar das amarras do passado. Até mesmo para que outras me enlacem novamente, preciso fazer isso. E se os sonhos me perturbam com os fluídos, se um determinado prato específico me faz revisitar os domingos naquela casa, assim como a camiseta de cor verde água-marinha me leva a uma comemoração, se tudo isso ainda insiste em perfazer meu circulo mental, impedindo-me de seguir, mudo o acordo que fiz com a maturidade: darei fim as fotografias para compensar com esse amálgama rememorador de ocasiões.
Pra quê as quero? Ocupam espaço nos móveis e comprimem a mente.
Tive a salutar intenção de conservar o simbólico passado em nome de um acordo moral que fiz, no escuro, na calada da noite ruidosa de pensamentos, para adentrar no oráculo da maturidade, em nome da superação que julguei ter alcançado. Contudo, apesar de tal juízo, não foi possível seguir adiante com as fotografias. Juro que as queria comigo, engavetadas e empoeiradas, mesmo sem mais amá-la. Eu as queria comigo, porque formalizam o passado, confirmam a história e douram a medalha. Dar-nos uma identidade vencida, amassada, rasgada, mas que é uma identidade. Queria ter uma história guardada...
Só que quando a intrepidez do passado passa dos limites, é preciso dar um basta. Feito. O prato específico e a bendita camisa não são possíveis de eliminar; não se joga presente no lixo e, muito menos, desperdiça-se pratos de comida. Então elas ficam, mas vocês vão. Vasculho cada canto; nada ficará. E vou devastando de modo regressivo, quero começar do presente para o passado só para sentir o sabor de chegar onde tudo começou e provar pra mim mesmo que dei o ponto final justamente no ponto de partida. Pronto! Nada mais restou, só o prato de comida e a camisa. E se no futuro eu encontrar alguma fotografia que passou despercebida mesmo após a devassa que fiz, é porque o destino quis.
Imagino uma senhorinha perguntando: "E os sonhos, meu filho?" Entendo que sejam ferramentas de desvinculação e catarse, que quanto mais se fixam nas excursões mentais, mais se distanciam da realidade. Deixo-os, como fotografias mentais que se dissolvem a cada fluído.
Pedro
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