Isolamento e suas benesses.


Isolamento e suas benesses.

Estávamos todos esperando o estadista americano, ou o chinês, talvez o coreano, o russo, e até mesmo o desajuizado do brasileiro oficializarem às suas patologias belicosas latentes e acabarem com o mundo de uma vez, mas veio mesmo o isolamento imposto pelo Estado, provocado pelo vírus, para salvá-lo. Quem está junto, quer separar; quem está separado, quer ajuntar. Mas tem os casos daqueles que já estavam a distância, e esta querem ainda mais ampliar. Também existem as mudanças de sensações, convicções e gostos pessoais... Eu me encaixo em todos os itens deste rol no contexto do isolamento.

 Sempre detestei a futilidade contida naquela aglomeração do bar da esquina, um famoso bar da capital e o mais popular do bairro, com aquela música alta, que, apesar de bom nível, só servia para passar um ar de recato e envernizar a erudição inexistente daquela juventude elitista e pseudointelectual, metida em fraseologias de ideólogos do passado. Quanta falta vocês me fazem, porque agora eu não tenho mais a quem criticar. Quanta falta me faz a multidão inconveniente e aquela frívola ostentação. Vejo-me agora querendo me aglomerar aos imbecis que sempre busquei me isolar; ser, enfim, mais sociável, apesar de tudo...

Há algum tempo eu formava um par com uma criatura, porém, graças ao empurrãozinho do tal isolamento, viramos ímpares. Não estou fazendo apologia às pragas epidêmicas, mas, sendo racional, fiquei livre de outra.  Acho que, seguindo a lógica do isolamento e da maioria dos casais nesse contexto, deveríamos forçosamente ter aceitado um ao outro, por falta de opção mesmo; rendo, no entanto, graças ao isolamento por esta outra benesse.

Sabe aquele amigo que lhe deu dor de cabeça a maior parte do tempo, levando o seu distanciamento quando este ainda não era obrigatório nem aclamado pela ONU? Você, leitor, precisa ampliar. Fi-lo, graças a quem?

O ruim disso tudo é que agora eu resolvi me apaixonar justamente no período que o ósculo pode matar. Enamorando praticamente de ponta a ponta da Bahia, cuidando dela como se estivéssemos fisicamente próximos, tratando-a como se tratava o famoso brinquedinho dos anos noventa, o ‘’tamagotchi’’. Só agora, aos trinta e um anos, entendo como ele era importante para Claudinho, meu vizinho em 1998.

O isolamento não nos isola de fato, faz-nos aglomerar e unir à parentela que estávamos afastados psicologicamente no antigo mundo, evita o confinamento marital indesejável, deixa-nos um pouco mais compreensivos e nos aproxima de aversões desnecessárias; todavia, também nos permite não comer os farelos dos porcos que andávamos, e pode unir quem ainda está a léguas de distância. Paradoxalmente ele não isola, apenas separa o que já estava, e une o que já seria unido. Agradeçamos a ineficiência dos estadistas belicosos, e rendamos graças ao isolamento e suas benesses.

Pedro Guimarães, 5 de julho de 2020.

 

 


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