Liberando Impurezas

 


Liberando impurezas.

 

Enfim consigo admitir que também queria, mas somente agora, aqui no papel, sem que a bendita leia ou fique sabendo, nem por sonho! Ela pôs um justo fim ao nosso relacionamento, e eu confesso a vocês que, no exato momento em que li isso, pois o ponto final veio por escrita, pude sentir o mesmo alívio quando chegamos ao andar escolhido após agrilhoar flatulências num elevador social lotado de gente, e divinamente podemos dispensar as impurezas eterizadas na mais que necessária solidão. Vamos agora à minha teatralização inconsciente daquele dia; juro que fora inconsciente naquele dia.

- Precisamos conversar.

- Já sei do se trata, você quer terminar nossa história de três anos; é isso, não é?

- Sim. Mas do mesmo jeito que nos encontramos para iniciar, devemos nos encontrar para finalizar.

- Absurdo! Não quero encontrá-la! Não aceito! Não concordo! Nenhum outro homem toca em você! Findar uma linda história de três anos? Nunca!

- Respeito seu momento, porém a decisão já está tomada. Estou decidida e cansei...

Sumi por 24h e uns quebrados após a encenação que, hoje, somente hoje, entendo ter sido feita, mas de modo inconsciente. Estava num misto de tristeza, uma espécie de satisfação tácita e temor, muito temor; afinal, ela poderia mudar de ideia. O sumiço fazia parte do meu drama artificialmente existencial.

A dúvida era: devo mudar a tática da ausência e reaparecer para dizer que concordo com a decisão antes que ela reverta à posição inicial; ou mantenho-me ‘’desaparecido’’ temporariamente?

Nesse hiato entre a decisão dela e o meu desaparecimento, eu ficava querendo incorporar as cenas de novela e filme românticos, em que havia desespero no momento dos términos. Paixões febricitantes que, havendo o rompimento de uma das partes, a outra parte, rejeitada, explodia. Mas não era o caso. Ouvia as músicas que embalaram o início do namoro para tentar acender uma chama, que teimava em demorar a vir... Digo que até vinha, mas sem reluzir com a intensidade das genuínas chamas das fogueiras da festa de São João.

Não houve revisão da tomada de decisão, justamente porque se tratava de uma garota decidida dos seus interesses de ocasião. E foi aí que meu ego ferido me deixou confuso. A partir do momento em que a notei resoluta, implacável, congelante, esvaindo-se mesmo entre minhas mãos, fiquei desesperado. Naquele dia, ou melhor, a partir daquele dia, o desespero foi consciente; era, porém, o maldito do ego.

Li em um livreto por aí que o Ego é o nosso ‘’eu inferior’’. E era ele mesmo que estava desesperado, pois meu ‘’eu’’ verdadeiro, superior, não estava nem aí. O que eu não admitia era vê-la no futuro com outro homem, meu substituto, mas não a amava de fato. Puro exclusivismo e vaidade.

Além da minha cara de jacarandá em admitir aqui o alívio encoberto, depois de tanto drama escancarado aos amigos, é preciso confessar dois elementos aparentemente incompatíveis existentes dentro de mim que irão fazer com que a minha faceta angelical apareça ao leitor: covardia e benevolência. O primeiro me perseguia há anos, por ter a vontade de tomar a decisão que a ‘’decidida’’ tomou, e não fazê-lo apenas para não vê-la sofrer; o segundo porque toda essa encenação serviu para elevar a autoestima dela naquele momento. Viu?

 

Suas queixas eram plausíveis, o cansaço era justificado, as críticas, coerentes, e à sua convicção, apesar de assustar-me e ferir-me, tirava o peso de uma responsabilidade que não gostaria que fosse minha. Todas as declarações possíveis e impossíveis e afirmações de compromisso não realizáveis e nunca feitas nesses três anos puderam ser escritas em três minutos. Assim, elevei a autoestima da ‘’decidida’’, contando com a sorte dela não acreditar em mim e, posteriormente, pude liberar minhas retidas impurezas na minha mais que necessária solidão.

 

Pedro Guimarães,  28 de maio de 2020.

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