Máscaras colantes

 


 

Diziam os intérpretes vulgares da espécie humana e suas facetas, assim como os especialistas de certos campos científicos, que todos usávamos máscaras, de uma forma ou de outra, em certo tempo. E que usávamos sem saber e sabendo, éramos, portanto, essencialmente mascarados e culturalmente também segundo eles. O que não esperavam é que, chegaria época, em que todos, absolutamente todos, eles, vocês e eu deveríamos a moldura dos nossos caracteres a máscaras colantes. Fomos impingidos ao desconforto que elas nos impuseram, porém, junto dele, veio possibilidades de manutenção, mudança ou, até mesmo, regressão. Para alguns, tempos de peste; já outros, tempos de benção.

Foi aterrador, porque nos desconstruiu. Aliás, equivoco-me, fez-se por cima, qual massa corrida sobre a estrutura que já existe. Antes, todos, absolutamente todos regozijavam de suas molduras, usavam-nas como bem queriam, enganavam, ainda que para se proteger e não ferir, dos distantes aos mais próximos, e simplesmente seguiam mascarados, tornando-se elas próprias; tantos outros enganavam para ferir, subir e vencer. Aquelas máscaras eram cômodas ao povo, justamente pela sua invisibilidade, eram endógenas; mas essa... qual massa corrida, foi capaz de revolucionar os semblantes da humanidade.

Simplesmente não houve alternativa: revolução ou morte, com qual eu fico? A revolução foi um imperativo, e tome máscara. Todos, absolutamente todos, do gari ao presidente, do político corrupto ao honesto, do assaltante à vitima, da criança ao idoso, e tome máscara. Era preciso, ou isso ou aquilo, com qual eu fico? Ninguém queria partir assim, com tantos débitos, e eu me refiro aos morais, àqueles que definem a morada celeste ou uma estada no inferno. O pavor da morte nos fez abraçar essa imposição do Estado. E mais, diria mais, independia da coercitividade estatal, porque um cobrava ao outro pelo seu uso. Lembre-se, esta, diferente da outra, era visível, moralizante, tangível, mantinha a centelha da esperança e o seu não uso era inadmissível.

Animais não a usavam, porque seus caracteres já estavam emoldurados pela gênese de suas criações. Não, eles não; já seus melhores amigos, sim. Ou isso ou aquilo, revolução ou o fim. Os amigos dos caninos tiveram que ensaiar sorrisos por de trás das máscaras, agradecendo pela boa temperatura do corpo, pelo teto, pela capacidade de reflexão possibilitada pelo distanciamento que lhes foi obrigado. Tiveram que olhar com temor às suas fragilidades por de trás das vistas. O óbolo os protegia, facilitava suas possibilidades de resistência, mas a máscara era a sua maior garantia, fazendo-lhes mudar expressões cotidianamente, sem ostentação facial, na sombra, ou melhor, à luz da máscara. Forçosamente, todos foram se modificando na sombra da luz, tendo seus sorrisos espiritualmente vistos, percebidos mais que antes, mas os que não conseguiram tal modificação foram vistos também. Paradoxalmente, as máscaras não os encobriam, desvelava-os.

‘’Máscara colante transmutadora’’, este era o seu nome; este foi também o seu potencial de transmudação de características morais e estéticas, acentuando vícios e virtudes, promovendo revoluções e fins, novos inícios e necessárias partidas, desenhando lindos sorrisos em rostos antes macambúzios. Revoluções foram acontecendo graças ao seu uso, mal-uso e não uso. Aos poucos, poderosos foram a deixando cair, e seus poderes, antes portentosos e interpretados como intransponíveis, desvelaram-se frágeis justamente por subestimá-la.

Havia expectativas para o fim da imposição, a hora estava, enfim, para chegar. Muitos já planejavam a sua retirada e o que fazer após o desfecho disso tudo, e continuavam a sorrir à luz da sua sombra; no entanto, à medida que anunciavam a proximidade do fim do caos, do medo, do risco, aqueles sorrisos mudaram de intenção. Pareciam retroagir moralmente, apesar de ainda mantidos, só que cada vez mais mantidos à sombra. Os sorrisos de gratidão se confundiam com as antigas excitações, de desespero, de cobiça. A malícia queria sorrir junto. E todo mundo sabe como é difícil servir a Deus e a Mamom.

Santa máscara que colava nas facetas humanas como massa corrida, qual foi seu proveito para esses mascarados? Seu uso dividiu a história da humanidade, e os livros de história passaram então a registrar, além do ‘’ A.C’’ e ‘’D.C’’, o ‘’A.M’’ e ‘’D.M’’. Após a estabilização do caos, todos foram informados que já poderiam despir os rostos, com a permissão do Estado. Tiravam, olhavam-se um para o outro, miravam-se espantados no reflexo das águas, e ninguém mais se reconhecia. Sorrisos colaram-se das máscaras às novas facetas, ternuras surgiram, mas como vagalumes, comiserações surpreendentes os impregnaram, só que encharcadas de conveniências, e os caracteres foram emoldurados juntamente com a abertura fixa das bocas, sorrisos fulgurantes e espontâneos, mas carregados de excitações. O mundo era de fato só sorriso, mas perdeu a santa capacidade de chorar; é a velha máxima de que os vícios nascem das exagerações das virtudes. Todos loucos para gozar novamente? Talvez. Os mascarados queriam deixar de assim serem, ansiavam por esse momento como nunca. Novamente a humanidade teria o rosto nu.

Por isso, a sina continua, dando azo aos especialistas e intérpretes se orgulharem de suas teses, afinal, as paredes estão revestidas da massa corrida para que, no futuro, recebam uma nova pintura, sempre buscando a combinação de uma boa camada de revestimento com um verniz duradouro. E a sina continua.

 

Pedro, 6 de novembro de 2020.

 

 

Comentários