Medo do retorno.

 


 

Pesquisadores da mente se debruçam sobre a questão do medo: de multidões, do desconhecido, do amanhã e da morte. Mas eu quero que tentem entender o medo dele ali que está de joelhos ao pé da cama, quase que encostado na sacada da sua janela, com as mãozinhas estendidas para o alto, com o fito de absorver a luz do sol através de suas palmas. Uns disseram a ele que o sol é o sorriso de Jesus, outros, que era o momento em que Deus parava para pensar nas próximas criações, ou no planejamento do dia seguinte. Independente da veracidade dos casos, ele está ali, com joelhos doendo, corpo queimando, grato pelo sorriso, unindo confiança nos planos solares para a cura de suas mãos com o medo de que suas erupções retornem; morrendo de medo da morte sem ter produzido na vida, dos julgamentos e, sobretudo, do medo de sentir medo.

É isso mesmo, olha lá o coitado com medo do medo, porque outros pesquisadores, da área epidérmica, que inclusive o aconselharam ao banho de sol, disseram que só pelo fato de ter essa normal, comum e necessária emoção aos seres humanos, sua deterioração era certa, e que as inflamações começariam internamente, silenciosas, até desaguarem para a superfície de suas mãozinhas. O beco parece sem saída, haja vista que, para não sentir medo, só o resta a coragem. E como ter coragem tendo as erupções latentes no seu gene? Mais ainda, o que é coragem senão o enfrentamento do medo tácito que existe em nós? Os coachings respeitados de hoje, que nada mais são que os curandeiros criticados pela fé cega de ontem, dizem que temos que vencer o medo e ‘’ir com ele mesmo’’. O corajoso, nesse caso, é aquele que enfrenta seus medos. Note que a emoção está lá, para ser enfrentada, portanto sempre existirá.

Olha lá como este ‘’pré-enfermo’’ sente um enorme calor diante dos raios solares que seguem queimando sua pele, mas nutrindo suas mãos potencialmente vulcânicas; olha como ele fica tentando lutar contra um sentimento humanamente natural. Observo daqui que ele se culpa quando fica aflito de tudo voltar a estar como em semanas atrás, e quando o sente, ativa a tal da emoção que abala seu psicológico, tão condenada pelos especialistas. Agora o coitado sente culpa da culpa. Sinto o seu terror daqui, compadeço-me, apesar de ciente que ele tem alguma força, algum brilho, alguma bússola especial para resolver essa crise. No momento, ele não quer olhar para dentro e ignora a bússola; respeitemos, então, seu momento de subida dos olhos ao céu ensolarado, grato pela presente saúde, cujo gozo é súbito, pois, em breve, as erupções podem retornar a deteriorá-lo.

Tão jovem, aparentemente tão forte, garboso e com boa inteligência, este medroso é vítima de suas próprias qualidades, das quais ele não se sente digno justamente porque sabe que tem medo, e pior, tem medo do medo, como já mencionei. É um fardo, para ele, os contrastes das qualidades morais e superficiais, qualidades objetivas e subjetivas, e sua propensão orgânica para inflamações cruéis, sua tendência ao desequilíbrio emocional causador de suas desordens fisiológicas que, por sua vez, causam desordens psicológicas. Terrível encadeamento. Todavia ele tem sonhos, estou lendo-os em sua expressão facial, e esta conversa agora com as suas mãos; tal expressão compeliu a face para recostar-se nestas; noto que as beija enquanto agradece ao sol, seu sorriso e ao planejamento do dia.

É um sábado ensolarado; você deveria estar numa praia, meu amigo. Quem diria que estaria a essa altura da vida com medo de suas próprias sensações, trancado no quarto. Levante-se, chega de tomar sol na sacada da janela, acredito que por hoje já deu. Vamos, enxugue o seu suor. Contei aqui mais de quatro horas no meu relógio. Não é possível que, mesmo com suas mãos saudáveis, você esteja com tanto medo, e pior, quando não tem medo dos julgamentos pelos olhares amedrontados direcionados às suas feridas, medo de sentir as dores de uma mão deteriorada, sente medo de ser feliz, de se acostumar com uma felicidade fugaz, ilusória, que a qualquer momento será interrompida pelas erupções. Estou notando que está desconfiado, será que não crer mais no sorriso e no planejamento? Ah, é? Não tem tanta confiança assim? E porque ficou quatro horas com as mãos voltadas a eles?

Parece que me ouviu, porque acabou de se erguer. Acho que o rosto molhado é justificado pelo suor, faz tanto calor ali. Mas existe algo diferente no olhar do medroso. Observo esse homem há um tempo, e pela primeira vez ele deixou que as lágrimas caíssem em pleno período de alívio das inflamações, sem dores, sem lesões, sem deteriorações. Agora eu entendi, desconfiava que não fosse só suor. E não para, ele chora copiosamente, suor e lágrimas fundindo-se na face. Há um tempo, ele aproveitaria o curto momento saudável para aproveitar o dia lá fora, no entanto, dessa vez, parece saborear o terror, o assume por completo esquecendo os pesquisadores. Parece rendido à emoção, ao sentimento, contraria os pesquisadores mais uma vez com mais lágrimas, deixando o medo tomar conta.

Escuto seu interior assumindo a emoção. Sinto que era tudo o que o sol queria com o sorriso do dia, render o homem para seus planos, afastá-lo dos pesquisadores. Danem-se eles, ele vai com medo mesmo, como diz os coachings. Agora disse mentalmente que confia na bússola e que irá à praia. ‘’Ainda que as erupções venham amanhã, quero sentir medo no meio da multidão e junto dos desconhecidos, porque meu tempo de vida diminui a cada dia’’, disse olhando as mãos. Abriu a porta e, com rosto inchado e o corpo úmido de suor, saiu. Voltou, após dez minutos, todo molhado, com raiva do medo e com culpa da raiva; o tempo virou e a chuva, com força, chegou.

Pedro Guimarães, 8 de outubro de 2020.

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