Metafísica do meu Liquidificador.
Metafísica do meu Liquidificador.
Reparei, em uma experiência culinária particular, a
moralidade que o liquidificador me aplicou e cheguei a uma simples conclusão
metafísica: por trás de uma boa vitamina de banana ou um suco delicioso existe
toda uma realidade cotidiana; por trás de uma invenção humana com o fim de
facilitar o esquartejamento de alimentos, uma ilustração divina. Não pense você
aí triturando alguma coisa desapercebidamente, colocando açúcar e líquidos para
o resultado ficar docinho e pouco consistente, que este singelo eletrodoméstico
não tem filosofia em seu motor e em suas ‘’garras’’ laminosas.
Muitas vezes, na vida, o forte ou ‘’grande’’ pensa que não
perece, mas um leito de hospital ou mesmo o túmulo mostra que ele é tão
perecível quanto o pequeno. É provável que, nas nações em que há uma discrepância
entre as classes, o grande tenha mais resistências em relação ao pequeno. Ora,
o grande pode se salvaguardar melhor, pois tem plano de saúde, veículo blindado,
teto, alimentos e um bom liquidificador para triturá-los e não morrer
engasgado. Porém, e aí é que tá, ele vai ser engolido pelos imperativos da
providência e pelas garras das lâminas de qualquer jeito.
Pegando emprestado o que sabiamente dizem os crentes, o
liquidificador é ‘’usado’’ por Deus; Meditem no momento em que acionam esta
pedra angular de toda cozinha e irão concordar comigo. A lâmina tritura primeiramente
os tipos mais suscetíveis à guilhotina e os que lhe estão mais próximos, e
assim logo são dissolvidos rapidamente; no entanto, ao colocar alimentos
maiores e com estrutura mais sólida bem por cima, ficamos mais impacientes
devido à ligeira demora. Os mais fortes e afastados da guilhotina resistem um
pouquinho mais, emperram às vezes, tentam humilhar a letalidade das garras com
seus tamanhos. Em certos casos, só um sacolejo ou a interferência de uma
intrusa colher para que a operação seja concluída.
Digo que não é preciso tanto. O liquidificador, como sabem,
é uma ilustração divina que retrata a realidade cotidiana. Através de um giro
ou um clique bem específico, aumentamos ou diminuímos a velocidade para facilitar
a operação. Quando sacolejamos esse equipamento do pai ou utilizamos uma colher,
facilitamos o processo, mas é o mesmo que desligar os aparelhos de um ‘’grande’’
ou forte em estado terminal num leito na UTI. Isso é querer influir no curso
natural da providência, e o liquidificador respeita o ditado: ‘’Tudo no tempo
de Deus’’. Logo, logo o grande se mistura com o pequeno, com um simples clique
específico, e fortes e fracos viram a mesmíssima coisa.
Pedro, 23 de setembro de 2020.

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