Minha caridade
A minha caridade é plástica e plenamente adaptável. Sinto
que mudei seu conceito tradicional cristão, que, mesmo este, tem também uma
margem para encaixes específicos, entendendo-a ora com uma esmola, ora com a
concessão dos nossos ouvidos às lamúrias do próximo. Existe, para mim, caridade
em absolutamente todas as nossas ações, desde que tenhamos consciência do ato,
um fim sábio ou redentor incutido nele. Não entendam como caridade um
assassinato ou as variadas tipicidades de violência, porque aí não existe
consciência nem sabedoria.
A caridade é minha massinha de modelar, e eu vou criando as
formas como me convém, ou quando convier à necessidade que julgo existir ao meu
próximo. A minha massinha pode se transformar em uma cortina imensa para a
janela da minha casa, evitando que alguma visita inconveniente perceba à minha
presença e venha despejar seus problemas em minha vida já problemática. A
massinha também pode tornar-se algemas e agrilhoar meus punhos para que eu não
venha atender um telefonema daquela pessoa maledicente, invasiva e que
certamente não irá terminar a conversa nas próximas duas horas.
As pessoas abusam do termo para abusar de você, distorcem
seu conceito por puro egoísmo e dizem que você deve ouvi-las por caridade, que
não deve deixar de atendê-las por caridade, e que isso e que aquilo. E se você
for devoto de um santo qualquer ou for praticante de alguma religião? Pronto.
Eles acham que você é a materialidade desse substantivo, e se não houver
resposta de sua parte para a expectativa que eles criam, inexiste a
possibilidade de algum adjetivo positivo brotar dessa palavra e impregnar no
seu caráter. Só somos dignos do adjetivo ‘’caridoso’’ caso contemplemos o que
eles anseiam. Mas existe uma diferença entre aquilo que andam ansiando e o
sublime substantivo. É por isso que ando modelando a massinha de acordo com meu
estado de espírito, e, assim, os aspectos dela soam naturais, espontâneos,
rígidos e ao mesmo tempo macios, com boa estética, sem a necessidade de
forcejar moldes deformados.
A caridade precisa ser espontânea, natural, rígida, macia e
com boa estética, e também precisa ser de você para consigo, pois, do
contrário, sairá deformada. A consciência com sabedoria deve buscar,
primeiramente, nossa redenção e, assim, permitir que as pessoas se encontrem em
meio às suas próprias trevas, seja engolindo seu próprio veneno, seja
transformando-o em remédio e conquistando a salvação.
Acho que não mudei seu conceito tradicional, apenas não
massageei muito a massinha.
Pedro Guimarães, 25 de julho de 2020.

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