Não busco mais Deus
Nem toda mudança significa evolução de espírito, mas também
não precisa ser involução, às vezes é apenas uma etapa de aparente estagnação,
de vazio necessário para, talvez, um preenchimento futuro. Procure não julgar as etapas individuais e os
processos subjetivos, pois o mero julgamento é frívolo e gastador de energia
mental, ele busca simplificações rígidas para situações complexas, bonitas,
aromáticas e profundas. Eu mesmo resolvi parar de orar e subordinar tudo a Deus
e nem por isso me sinto encaixado nos patamares superior ou inferior. Mas como
assim?
Antes era completamente cético, herege, imundo
espiritualmente mesmo, mas aí veio a dor para fazer com que eu ajoelhasse e
choramingasse ao criador do céu e da terra, o alfa e ômega. Pronto, foi o que
bastou para que virasse quase que um orador, um ‘’autodisciplinador’’, um
sofredor psicologicamente falando, porque a partir do momento que você conhece
a verdade, ela o prenderá a consciência. E desde então, recorri ao senhor para
todas as demandas terrestres.
O que faz um religioso? Ele segue a sua nova consciência,
tornada divina após descobrir a verdade; diz-se, sendo cristão, um escravo do
mestre Jesus Cristo. Mas, além disso, o religioso é escravo da satisfação
social, da coerência dogmática ou dos princípios; dê o nome que quiser, pois o
mandamento é um só; Deus é apenas um também, o que varia são as fórmulas para
se achar o resultado. Então, eu encerrei a fórmula da procura por Deus nas
fundamentais orações e publicizações da minha fé, passando para a etapa de
procurá-lo no vazio, na ausência, no movimento da caminhada e no pôr do
sol. Outro dia o meu cachorro me mordeu,
e eu encontrei Deus no sangue que escorreu pelo braço.
Não faço apologia contra os ritos e rogativas, muito menos
contra o engajamento dos movimentos religiosos, mas o meu momento é de
encontra-lo nas minhas capacidades individuais, na minha liberdade libertina
que, logo que a satisfaço, obriga-me ao recolhimento para meu vazio, porque ele
me convoca através do penhasco da consciência. E lá, não me encontrando, não
oro, escuto uma música qualquer, do meu gosto, que não faça menção a Deus, para
que justamente eu exercite a possibilidade de me achar onde ele não está e,
assim, nesta etapa da minha caminhada, vou, pretensamente, testando seu poder
de me encontrar nos esconderijos da sua criação.
Pedro, 11 de setembro de 2020.

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