Coadjuvantes
Nada se compara a discrição imponentemente chamativa
daqueles que não se deixam levar pelos sentimentos, energias e holofotes da atmosfera
de um local, qualquer que seja o local ou contexto. Notem a imparcialidade do
baterista ao fundo, na circunspecção do saxofonista ao lado dele e na
concentração penetrante do pianista ou violoncelista. Agora espiem a jactância
silenciosa do guitarrista ao fazer o solo derradeiro, depois observem a
sutileza estrategicamente imposta pelo baixista. E o que dizer do meio campista
que lança para o craque tornar domingos de tarde mais sorridentes aos pobres?
Estes são elegantes e, geralmente, tímidos e austeros.
Os músculos dos rostos desses seres não contraem tanto como
daqueles que vivem do foco da iluminação do palco e das câmeras; não há
envolvimento de suas partes; brilhantemente impessoais, eles são o sustentáculo
tímido e quieto do espetáculo, mais berrantes dos que estão na dianteira do
negócio. De quando em vez a luz vai a suas direções, mas eles não mudam suas
fisionomias enigmáticas e atraentes.
Simples coadjuvantes que deixam tudo preparado para o
protagonista, seja aquele que rege ou o que canta; seja também o que faz o gol
e sempre tem à sua foto estampada nas manchetes, quando o mérito foi do meio
campista. O bastidor pensa, a coadjuvação delineia as linhas, une-as e, se
preciso, desune-as para uni-las novamente, até transformar o amorfo em forma
pronta, acabadinha, precisando apenas de umas cores, um cabeceio e um pingo de
emotividade para poder existir.
É fantástico notar que tanto aqueles que preparam a jogada
de um gol fazendo torcidas vibrarem quanto os que retiram perfeitas harmonias
sonoras de um objeto inanimado permitindo casais se amarem e filhos nascerem,
não aproveitam a beleza daquilo que proporcionam. A superioridade soa
espontânea, a indiferença transparece sem parecer antipática.
Trata-se do tipo mais sensível de insensibilidade; da frieza
mais calorosa. Eles não invejam o holofote, o arremate, a aparição derradeira
nem a última palavra. Escrevem a letra da canção e a entregam, muitas das vezes
perecendo no anonimato. Quando vivem, é o pseudônimo, portanto não vivem. Só
doam, permitem gritos de felicidade e beijos de amor; lançam a bola e retiram
harmonias sonoras de objetos inanimados; escrevem, filmam, roteirizam. Doam sem
esperar nada em troca. Quanto charme dos que não fazem questão de assim serem.
Pedro Guimarães, 21 de junho de 2020.

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