O pedido
O
Pedido
Ao mesmo caminhar até o final do mesmo salão a
fim de, antes de sentir o vento, desligar o mesmo ventilador velho do fundo, que
fica suspenso ao alto da parede mofada, pode-se ter distintos desfechos, embora
tenhamos os mesmos personagens em cena: eu e o diretor, com nossos mesmos
padrões de comportamento, endurecidos com nossas convicções rijas e apegados às
nossas verdades inquestionáveis. Assim sucedeu-se naquela tarde abafada e
ensolarada quando fui ao edifício da Cura da Alma e me deparei com o
‘’indeparável’'; uma lição daquelas constrangedoras de tão surpreendente.
É
verdade que estou pulando etapas do silogismo. A gênese do conflito que
antecedeu tal pedido não teve como ponto de partida aquela noite da provocação,
que ainda irei explicar a vocês, onde repeti o meu claudicar ansioso para tomar
o ar fresco das hélices antes de desligá-las, como faço ao fim de toda palestra
no salão do edifício da Cura da Alma. Resgatar isso tudo daria uma atmosfera
ainda mais rançosa, escavando mais inconveniências nos escombros da minha
consciência, que grita por leveza.
Deter-me-ei, então, por essa tarde abafada do
preâmbulo que curou a tal noite fria do duelo.
Confesso
que, apesar da minha modéstia à parte, sentia, até outro dia, a evolução moral
e humildade pulsando nas minhas entranhas, e o fato de ter achado que estava
integralmente certo nessa história não mudava essa lúcida sensação. Sempre
considerei que a evolução e humildade moravam aqui.
Não questione isso internamente; sei que está
questionando. Mas saiba que as autopercepções e autoavaliações têm limitações
no espaço temporal. Gostava de substituir arrogância por confiança, sofismando
e eufemizando para não me encarar.
Ao
final de uma palestra numa noite de segunda-feira, eu estava, como sempre, indo
em direção ao ventilador, para tomar um frescor antes de desligá-lo, quando o
diretor, de pé, no alto do púlpito e valendo-se do alcance vocal que lhe dava o
microfone, fez-me uma provocação, expondo-me ao ridículo na frente da plateia
que se encontrava por lá; eu reagi e me orgulhei da minha reação. Porém, antes
de fazê-lo, por ser tímido, hesitei de contragolpea-lo, decidindo, assim, desistir
da batalha e ir para minha casa. Fi-lo. Desci todos aqueles degraus da escada
que me levavam para fora e, após distanciar-me metros do local, parei,
ponderei, e desisti da desistência. Retornei ao prédio das almas e fui até o
bebedouro tomar um pouco de água, que foi para mim como uma gasolina aditivada,
dando coragem para a timidez e agilidade às minhas engrenagens biomecânicas.
Voltei com tanta força e agilidade nas pernas que subi todos aqueles degraus
como se estivesse os descendo.
-
Quem o senhor pensa que é? – disse-lhe dando tapinhas em seu ombro direito no
momento em que estava virado de costas, distraído, conversando com um dos
presentes. – Tenha mais respeito! Não sabe do que sou capaz!
“Deixei
de ser frouxo”, era o que eu gritava em pensamento enquanto voltava para casa. O
diretor ficou sem reação, e eu comemorava como um jovem no período pré-púbere
que identifica no espelho algumas filigranas do buço.
Desde
esse nosso duelo noturno até à tarde abafada, passou-se um ano. Cada um ficava em
um canto do salão nesse ínterim: ele na mesa diretora sobreposta no púlpito, e
eu na plateia, sentado em alguma cadeira de plástico, acomodado para assistir a
palestra do dia. E assim continuaria, dependendo de mim. Olhávamos sempre desafiadoramente
um para o outro, ao menos era assim que eu lia suas fitadas. Nada paranoico;
nenhum complexo; muito menos alguma mania de perseguição.
Um
ano depois da provocação que levou à minha reação, e minutos antes do
reencontro nessa mencionada tarde ensolarada, que estava realmente bem abafada,
quando fui assistir à nova palestra e repeti o percurso já conhecido por todos
ao fim dela, eu ainda sentia um enorme orgulho do meu ato naquela fatídica
noite.
Ele
mereceu, acreditem; ou melhor, eu achava que tinha merecido. O juízo que fazia
do mérito de Celso, o referido diretor provocador, à minha reação,
transformou-se após essa tarde. Por isso essa contradição dos tempos verbais na
mesma ideia. Somos frágeis, sem verdades inquestionáveis e com convicções pouco
rijas.
O
diretor, que leva o mesmo nome do antigo filósofo grego questionador da
sublimidade do Cristo, trabalha para o mesmo Cristo neste centro espírita que
cura Almas enfermas. Traços grossos e corpo robusto, ele leva fama de ter a
mesma espessura de seus contornos morfológicos na sua forma de tratar os enfermos
do edifício. Pode até ser. Mas a verdade é que ele se doa como poucos, e as
grosserias vêm de brinde como fator compensador do seu suor. Entrega-se aos
trabalhos voluntários como os servos cristãos se entregaram quando abandonaram
as terras de suas subsistências para recuperar a terra santa na idade média.
Apesar de sempre ter olhares críticos à rudeza de Celso, sempre admirei como
ele abandonava a própria vida em prol do trabalho voluntário neste centro
espírita. Um grande feiticeiro e curador de doentes, não obstante à aspereza.
Teria
sido, de fato, mais um dia ordinário, em que Celso abandonaria o conforto
material para se entregar aos trabalhos espirituais, mais um dia que nos entreolharíamos
de canto, cada um guardando suas razões particulares em si, um tentando adivinhar
os olhares do outro. Quem falará primeiro? Quem errou? Qual braço irá torcer?
Quem é mais humilde? Talvez sejam essas dúvidas de quem me lê, e também eram as
das assistentes de Celso, igualmente voluntárias como ele, que presenciaram o
nosso icônico combate daquele dia.
Mas
as dúvidas reais giravam em torno de mim para mim, próprias do meu
exclusivismo; “se eu pedir perdão, perderei a razão? E se eu falar e for grosseiramente
tratado pelo diretor austero e implacável? E se estender a mão para ele, na frente
de todos, de modo a passar exemplo aos demais? Seria bem falado, afinal eu fui
a vítima, e ainda busquei a reconciliação”. Pensamentos que não se
materializaram no edifício da espiritualização dos próprios. E como feiticeiro
requisitado da época, Celso poderia, até mesmo, estar lendo meu campo mental.
Todo cuidado era pouco...
No
momento em que eu estava tentando me concentrar para assistir à palestra
daquela tarde, ele veio até mim e disse, com a ‘’delicadeza’’ de sempre:
- Quando
terminar a exposição, venha a mim que eu quero falar com você!
Confesso que o abafamento da tarde ensolarada trasladou-se para o resfriamento da minha espinha. Gelei literalmente. Não sabia o que esperava por mim de quem eu não esperava nada, ou melhor, esperava uma tréplica bem temperada dele à minha reação daquela noite, pois não houve tempo hábil para o revide.
Ao fim da explanação do expositor daquela tarde, eu fiz o de sempre. Mas não os desliguei de imediato. Quis tomar mais vento que de costume, de modo a preparar-me para o pior. A cena do dia da provocação me tomou de assalto, parecia repetição. Caminhando quase que involuntariamente, estava eu face a face com aquele mesmo ventilador, com a diferença que fui pego de surpresa pela provocação dele daquela vez; desta, tive aviso prévio e tempo para me armar...
“Celso
tinha mudado seu estilo de duelo após passar um ano do ocorrido? Teríamos um confronto
mais elegante que da outra vez? Agora não iria nem rosnar pra ele, no máximo
uma entonação mais grave para impor respeito; de mocinho para vilão; de mim
para Celso, na ordem”, assim pensava...
Um
pedido para um embate era espantoso e bizarro. Todavia, eu estava preparado. Vamos
lá: um ano mais velho e consequentemente mais evoluído moral e espiritualmente.
Celso não teria chances. Eu o colocaria no seu devido lugar, com mais fineza do
que da outra vez; confesso que apelei daquela. Todavia, um duelista que se
preze nunca pode subestimar a capacidade do rival. Cometi esse erro grosseiro e
infantil.
Distraí
e, por ‘’baixar a guarda’’, ganhei um abraço e um beijo na testa daquele que
costumava demonstrar carinho com tapas estalantes nos ombros alheios. Pensei
que Celso estava com febre, mas lembrei de sua temperatura normal quando nos
encostamos para o abraço. O diretor austero sorria de orelha a orelha, até o
olho brilhou. A reconciliação aconteceu mais à frente do salão, sentados e
insulados numa tarde ensolarada; em oposição ao dia do duelo, que foi ao fundo,
de pé, com plateia e à noite.
Tivemos boa conversa e me senti revigorado, apesar de assombrado com o que via. “Teria eu desenvolvido as mesmas possibilidades mediúnicas de Celso e estava ‘‘vendo coisa”? Não. Estava realmente acontecendo, e eu tomava uma lição sem que ele quisesse me dar.
No mesmo salão, também ao fim de uma palestra, e me deparando com aquele maldito ventilador que virou objeto de trauma por um ano, tudo foi diferente. Gesto imprevisível daquele mais previsível, sempre condicionado a palavras repetidas no preâmbulo que antecedia todo início e fim de palestra no edifício. Com suas orações que, de tão óbvias introduções, eu as repetia como um grande dublador.
Veio dele o pedido que não esperava que viesse e que jamais pensei em pedir, por teimar que só um de nós deveria fazê-lo. Seu gesto me fez conhecer a verdadeira humildade que nunca tive. E, com isso, também resolvi pedir o pedido que o Cristo, mestre daquele edifício, nos orientou a praticar, para que tivéssemos condições morais de implorar ao seu pai todas às noites, como eu fazia em pensamento contrariando as letras que saíam dos lábios: '’perdoai as minhas ofensas assim como não perdoo a quem me tenha ofendido”.
Pedro
Guimarães, 2 de Fevereiro de 2020.
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