Teóricos Incoerentes
‘’Cada um com seu cada qual’’ e nos seus recantos quando vem
retinir do lado de fora do Edifício Soraia um grito de desespero, que desde logo
percebi ser de um cãozinho miúdo e frágil, menos pelo gemido agudo do que pela
impossibilidade de um cão bravo e robusto se acovardar diante de qualquer
situação, até mesmo em casos de maus-tratos, como foi o caso. Demorei um pouco
para entender o que se passava, estava ocupado com a leitura de uma obra, mas a
minha mãe, mineira como Tiradentes, adepta ao espiritualismo, espiritismo,
budismo, socialismo, humanismo, veganismo e pacifismo foi rápida na reação e a
primeira a protestar:
-Desgraçado! DES-GRA-ÇA-DO! Oriundo de rameira! Façam alguma
coisa, uai! Esse ‘’trem’’ vai matar o pobre do animal! Maldito! Denunciem ou matem-no
antes que o bichinho fique paralítico ou venha desencarnar! Que a
espiritualidade do umbral saia de lá e arraste esse louco...
Já a vizinha, Católica Apostólica Romana e gaúcha como os
revoltosos dos farrapos, inclinada abertamente ao espectro da extrema direita
na política, foi contagiada pelas ondas magnéticas coléricas que ascendiam do
nosso primeiro andar até o dela, logo acima, e continuou:
- Mas bá tchê! Chamem a polícia! Liguem para a entidade que
protege os animais! Alguém tem arma aí? Atirem na cabeça desse filho do
demônio! Tu vais matar o cão, excomungado do inferno! Alguém vai ligar? –
gritava ensandecida.
E o efeito manada
prosseguiu pelo prédio carcomido...
- Alguém pega o pau, ‘’vamo’’ matar o psicopata – disse o
porteiro da terra de lampião, altruísta e candomblecista.
- Calma. Sejamos racionais e éticos. Filmemos e façamos uma denúncia
munida a provas, que serão irrefutáveis num litígio futuro contra esse
marginal, que só podia morar onde mora, nessa favela fedorenta – disse
polidamente um vizinho ‘’de porta’’, advogado paulista, na sacada de sua
varanda; sempre cheio de desvanecimento pela revolução de 32.
Outros presentes, em andares mais altos e por isso mais
distantes de mim, também gritavam com seus sotaques não identificáveis à minha
audição, até a rouquidão os visitar, esvaindo suas forças vocais mesmo. De
crianças, velhos, depressivos e fumantes aos mudos, que urravam para dentro,
demonstrando uma legítima, peculiar e bizarra indignação com a triste cena.
Enfim, todos, absolutamente todos gritavam das sacadas de suas janelas,
acusavam e ameaçavam o torturador do cãozinho; os citados teóricos, no entanto,
protagonizavam com seus regionalismos estridentes retocados pela fúria.
É bem provável que o mítico ativista e pastor americano dos
anos sessenta ficasse feliz com esse cenário, afinal ele propugnava que
independia o efeito provocado pelos maus, pois o mais perigoso mesmo era o silêncio
provocado pelos bons. Porém, saiu do silêncio e só ficou no barulho, nos xingos
e ameaças dos ditos obreiros de Deus, bem como na teoria não posta em prática
do também hipócrita homem da lei; enquanto eles gritavam e teorizavam, o coitado
do cão apanhava; e eu, ‘’baiano arretado’’ da conjuração, terminava, recostado
na cadeira, à minha leitura do dia, uma obra biográfica de Francisco de Assis.
Pedro Guimarães, 4 de julho de 2020.

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