Regresso
Regresso.
Tu voltas pelo Amor ou para tê-lo?
Perguntei-me semana passada; respondi-me dias atrás.
Tu voltas por ter o Amor mais redentor, lascivo e
maternal.
Sou tua testemunha auricular, tua mais singular e
exclusiva testemunha,
Da tua dor...de teus regressos que fazem tua catarse da qual esse ominoso se compraz.
Mulher,
Tu tens tanto Amor... Será amor?
Aqui ao lado, bem ao lado,
Cá estamos separados por essa parede intrusa,
Esta santa parede intrusa e pútrida que distorce o
preceito,
Que tapa minhas vistas por ser motivo de escândalo
E contribui para que eu romantize teus prantos enquanto
não a vejo.
Entenda-me, Mulher...
Pecaminoso tanto quanto esse amor:
Escuto-os...
Sinto-me pulsilânime, co-abusador...não sei,
Aceito-me.
Poetizo em
cima dos teus soluços,
E risco na folha a tua desgraça do outro lado da
parede.
Descanso a ponta do lápis na folha... Paro.
Respeito teus gritos, esperneios, gemidos; Travo.
Tremo-me agora por inteiro com o silêncio raro,
Sinto-me francamente intimidado
Com tal morbígera expressão de Amor bravio.
- Cessa, martírio, cessa!
Martírio cessado.
Deito agora minhas cansadas pálpebras e entrevejo promessas,
joelhos ao solo,
Tu vais neste instante, eu sei, ignorando o perdão.
Carícias no rosto, ósculos vagabundos, mãos vulgares
a deslizar pelo teu sagrado colo...
Eu sei, tu voltarás, Mulher...
Esse amor te tem na mão.
Pedro Guimarães, 21 de Março.

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