Intocável Carnaval
Hoje, finalmente, eu fui fazer aqueles exames necessários. Sim, são extremamente necessários, mas eu os estava adiando, seja por medo ou procrastinação, mas eu estava adiando fazê-los, e só não o fiz novamente por muito pouco. No entanto, eu acordei às 5h:30, caro leitor, e isso é muito raro, e ainda o fiz sem precisar ser despertado pelo despertador. Para me encorajar ainda mais a sair, o astro rei estava latejando no vidro da minha janela, derretendo a cortina azul. Pensei: ''Acho que vou aproveitar esse despertar singular e autônomo para resolver logo isso hoje''. Depois eu lembrei que era uma segunda-feira mais singular que esse meu despertar: era carnaval sem carnaval.
A exigência para a realização correta dos benditos exames era de não realizar o desjejum matinal antes de fazê-los: regras são regras; com dificuldade imensa, cumpri-las. Assim que cheguei à clínica, fiz umas piadas com uma atendente sobre o carnaval inexistente:
-Tá digitando rápido pra conseguir alcançar o Bel na avenida, não é, bonitona?
Queria quebrar o gelo, mas a moça não esboçou um apertar de olhos, expressão que atualmente denuncia o sorriso nos rostos mascarados. Estava nítida a raiva da atendente ao emitir os ''tec-tec'' do teclado, os quais estavam cada vez mais altos, e a impressão que ela me dava era de um profundo e antigo desejo de afundar aqueles botões. Não insisti com as anedotas e, antes de ser encaminhado por ela à saleta de coleta, me despedi bem rápida e secamente:
- O teclado tá no ritmo do Olodum. Obrigado, benção! - não quis olhar para trás, portanto não sei lhes dizer qual foi a reação dessa vez.
Fui andando até a sala 26 no ritmo dos ''tec-tec'' do teclado, dançando mesmo, simulando passos, com todos os pacientes e funcionários do laboratório me olhando. Não sei dizer o porquê, mas, mesmo não gostando, estava em clima de carnaval, numa segunda-feira de carnaval, em que não havia carnaval. Foi a maneira através da qual eu retirei ânimo para receber uma agulhada de modo menos pungente. Assim que cheguei próximo à porta, era uma saleta bem desconfortável, a enfermeira apontou com o dedo para uma poltrona, como que pedindo para eu me estabelecer bem ali.
Fiquei inebriado com a silhueta da figura, visto que o rosto estava tampado, foi ''apenas'' isso que pude lhe admirar. Ela notou, mas não se importou.
- A senha, por favor.
- Aqui, linda. Bom dia! Como você está?
- Braço direito ou esquerdo?
- Alguma sugestão, querida?
- Direito ou Esquerdo?
Respondi ''esquerdo''. Durante a perfuração, ainda inebriado com aquela curva que de tão fechada me tonteava, mas completamente tenso e resistente à agulha, eu lhe perguntei como seria ''esse carnaval sem carnaval''. Foi nesse momento que a dor tênue e sutil começou a tornar-se intensa e aguda. Pensei que meu braço estava sendo cortado no meio. Sim, caro leitor, a enfermeira da silhueta insinuante afundou a agulha no meu braço branquelo. Neste momento, tratei de dar um fundo musical condizente à situação.
- Não vou chorar, nem vou me arrepender, foi eterno enquanto durou, foi sincero o nosso amor, mas chegou ao fim. Uô, Uô, Uô. - eis que me vi usando de um gênero pouco simpático a mim, apenas ao meu bel convir.
Concluída operação, que se transformou em tortura tanto pelo platonismo quanto pela vingança, saí da sala de coleta com o coração partido, braço dolorido, porém saudoso pelo carnaval. Todos me olhavam, dos seguranças aos profissionais de limpeza. Naquele momento eu estava perdido no laboratório, procurando a salinha do desjejum, afinal os pacientes lhe têm direito, é uma espécie de ''cortesia da casa'', quando passei próximo à recepção da moça que toca percusssão com os teclados do computador, e vi que, além de seus olhos me fuzilarem, perseguindo meu caminhar sem que a dona deles precisasse mover a cabeça nem perder a concentração no atendimento ao cliente, os ''tec-tec'' voltaram com toda força. Entendi ali que eu era o maestro do seu bloco.
Afastando-se dela, o batuque abrandou de súbito, voltando ao normal. E eu continuei andando, dando tapinhas no peito, como que batucando alguma canção imaginária do carnaval, cantarolando como ventríloquo, mudamente, sem vocalizações; não queria fazer parceria com os ''tec-tec''. Continuava em jejum, procurando sanar aquela condição, mas desisti de procurar o local por vias individuais.
Resolvi, então, meio receoso, perguntar aos funcionários onde que é que se fazia a desgraça do desjejum. Inacreditavelmente não houve má vontade; ao contrário! Foram extremamente solícitos. Por toda aquela incontrolável espontaneidade apresentada por mim logo ao chegar, não esperava tal solicitude de suas partes, porque eu pulei carnaval em um dia de carnaval que não havia a tal festa. Primeiramente o segurança me apontou, muito educadamente, para o segundo andar. ''Na sala 12'', disse-me, com seus dois metros de altura. Fui, abri a porta da sala de um urologista e vi uma cena bem desagradável. Depois a gentil a faxineira corrigiu o segurança e me apontou para o terceiro andar, que estava desativado; comecei a espumar. Olhei para o relógio e vi que estava quase dando meio dia; cada vez mais nervoso, impaciente e faminto. Como podiam errar uma informação simples do local em que trabalhavam?
Por ser um dia atípico, clima de feriado num contexto pandêmico, não restavam outros funcionários além daqueles aos quais pedi ajuda, nem mesmo pacientes mais havia, e eu já tinha perdido muitos minutos procurando a maldita cantina para realizar meu desjejum. Foi então que vi a moça dos ''tec-tec'' em seu posto de trabalho, sentadinha, parada, olhando-me, ociosa, aparentando está me aguardando. Era a única que parecia com condições de me informar corretamente, afinal era a mais requisitada dali; observava que todos tiraravam suas dúvidas com ela. Prometi a mim mesmo que não mais bancaria o folgalzão, sem sorriso nem comentários sobre a festa mais popular do planeta.
E não é que a criatura não tocou percussão dessa vez? Senti um alívio que, por si só, já minorou meu quadro esfaimado. Ela olhou para o relógio e, em seguida, apertou os olhinhos, enfim denunciando pela primeira vez o sorriso no rostinho mascarado. Nessa hora o ponteiro apontava para 11h:45. Ela perguntou como eu estava e puxou um assunto gostoso sobre futebol, justamente futebol, e isso vindo justo de uma moça. Estava uniformizado com a camisa do meu time do coração, que era a todo instante incrivel e estranhamente elogiado por ela. Quanta coincidência, uma corintiana igual a mim. Até que, após exatos dezesseis minutos conversando sobre a partida do fim de semana, ela se lembrou do meu desjejum. Rapidamente, me acompanhou até a cantina, que continha uma placa com o aviso: ''Fecha às 12h''. Ela me fitou e, pela segunda vez, os olhinhos ficaram apertados.
Pedro, 15 de fevereiro de 2021.

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