O que representa?

O que representa cada luz e cada escuridão, hein? Cada lâmpada ligada, aluminando os cômodos, e cada interruptor desligado, apagando os cantos? Representam mesmo? Penso que devam ser apenas representações da realidade incriada e nada mais. Penso que a nossa expectativa de que tudo deva representar alguma coisa é pura pretensão humana e nada mais. Às vezes penso que o ser humano pensa demais; veja só, são apenas janelas, quadrados escuros e luminosos, basta ser mais um desses por aqui, para quê mais?

Decido espiá-los com a minha ridícula pretensão; espio-os. A madrugada já se estabeleceu por aqui, e me arrisco a dizer que é com a madrugada estabelecida, instaurada, com firma reconhecida em cartório, que é possível fazer a pergunta do título. Ei, por que não apaga? Por que não acende? E você, minha senhora ou meu senhor, moça ou rapaz, porque ora apaga, ora acende? Tanta angústia deve ter por aí ... tanta paz por ali...tantos estudos acolá.

No último andar deve ter um casal se amando, porque as janelas estão fechadas, mas podem ter fechado para que uma briga não repercuta; no terceiro, noto que uma luz coada por vitrais coloridos contrastam e duelam com a escuridão, julgo que venham da TV. Será que ele, ou ela, dormiu com a TV ligada? Terá tido um enfarte fulminante? Quantas polegadas devem ter? O que assistia? Comprara à vista ou à prestação? E o valor, a marca, a quantidade de parcelas...E se morrera, devo começar a orar por sua alma, mesmo sem uma confirmação? Caso vivo, é menos digno de uma prece?

Já é madrugada, janelinhas, deveriam estar dormindo. Deveriam? Por regra, sim.  Todavia, quantas dessas apagadas, que são a maioria, realmente descansam?  Muitos despertam durante a madrugada e permanecem em vigília na escuridão; outros tantos fecham os olhos, mas não dormem. Há aqueles que dormem e não descansam, assim como há os que descansam com a luz acesa, ouvindo blues, saboreando uma obra na companhia de um vinho. Que fascínio me causam as representações das janelas desse edifício defronte à minha janela. A maior parte da humanidade estaria em paz porque a maioria das janelas está escura durante a madrugada? As estatísticas indicam que não há paz na maioria das mentes humanas, mas, caso eu fosse me fiar na ‘’realidade’’ defronte, duvidaria das estatísticas. Via de regra, na madrugada, as escuridões das janelas representam, ou pressupõem, à luz interior contida no repouso, ao passo que as luzes acesas representam a escuridão interior contida na insônia; estou, contudo, fascinado em conjecturar a partir de tais representações, que são meu foco, apesar de tirarem meu sono. E cá estou eu, observando mais um amanhecer, com a luz natural invadindo meu quarto, misturando-se com a luz elétrica a qual esqueci de apagar, mostrando que sou parte da regra.

Pedro Guimarães.


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