Pequeno barulho.
A diferença entre um grande evento e um pequeno barulho
está nos tipos de ambientes - uma vez que um sepultamento num interior é experenciado
de forma diversa na cidade - e na simples necessidade de se preencher um vazio
ou de sair do ócio. Pode-se dizer também que a depender da profisssão da
testemunha do ocorrido, será a primeira ou a segunda opção, porque, se para uma
dona de casa um botijão com gás escapando é um grande evento, para um bombeiro
é um pequeno estalo. E se pra ela cuidar sozinha de cinco filhos, um marido e
um cachorro é um pequeno estalo, para o bombeiro... Andei notando isso na minha
vizinhança. Não reparei em nenhuma dona de casa e por aqui - pelo que sei -,
não há bombeiros, mas há Edivaldo - o Folclórico porteiro.
Folclorizar personas com as características dele é
um péssimo hábito no meu país, onde estigmatizaram o povo como cordial,
emocional e ‘desoreupeuzado’, em suma, como besta ignorante. Não pretendia
fazer isso, mas Edivaldo era, sim, uma figura folclórica. Não era minha
intenção também satirizar o seu notável apedeutismo, inocência e malandragem,
mas não fazendo isso tiraria o tempero da história e não o tornaria letrado,
esperto e ético. O que importa aqui é tentar entender, sem julgar, o que se
passava na cabeça daquele humilde empregado do edifício Soraia, de cujos
moradores o solicitavam até dizer chega.
Eu o conheci no ano de 2019, quando mudei de bairro,
do Garcia para os Barris, mantendo-me no centro da cidade de Salvador. E foi em
2019 que nossos primeiros contatos começaram, meio que timidamente ainda, mas sempre
que o via pela portaria do edifício não deixava de colocar sérias pautas na
mesa dele, com fins instrutivos, sem pernosticismo de minha parte na prosa,
falando do seu modo. De política a assuntos sentimentais, mas nada adiantava. O
homem tinha o riso frouxo, desconexo, e o pior é que tinha o ‘’efeito bocejo’.
Eu ria de volta de coisas grotescas sem me dar conta.
- Edivaldo, estou triste. A menina chorou quando
pus, com cuidado e delicadamente, um fim na nossa história.
- Põe de novo, seu Marcelo! Põe com força dessa
vez... Elas gosta quando ‘pomos’ com força... Quiá...qui..qui...quiá...quiaaá...Você
é ARRETADO, viu, homi?
E eu ria, ria como um senil. Às vezes achava graça,
mas muitas das vezes eu ria devido ao ‘’efeito bocejo’’. O cérebro deve ter
mesmo o tal do comando do riso involuntário, que me traía, que retirava o resto
da moral que eu tinha com Edivaldo. Este foi aos poucos perdendo o respeito por
mim a cada tentativa malograda de lhe impor graves pautas.
Edivaldo fingia que trabalhava. Passava a maior
parte do tempo mergulhado ora no ócio, ora nas pernas lisas e bronzeadas das
transeuntes da rua. Também se perdia em um mundo misterioso e oculto ao grande
público (em algum momento volto a essa questão). Graças ao familismo da síndica
e também professora, Dona Julieta, conseguiu esse emprego, porque trabalhar
mesmo não trabalhava. Dona Julieta o viu nascer, dizem que trocou suas fraldas
e viu seus primeiros passos, só não o adotou em razão de sua preferência por
felinos de raça em detrimento de humanos. Ela tinha seis gatos, todos moravam
sozinhos em um apartamento, ao lado do meu, no sexto andar. Diziam que Dona
Julieta não batia bem da cabeça, e eu - apesar de sempre ter tido um
relacionamento saudável com ela -, não irei advogar em sua defesa. Todas as
manhãs, às 5 h: 45, ela gritava antes de abrir a porta para alimentar os bichos:
- Vicentino! Constantino! Alfredo... Políbio?!...
Iiisadoraa?! Amazônia?!
E tome miado estridente.
- Estavam com saudade da mamãe, estavam?!
Quando ela perguntava isso, os miados estridentes
aumentavam de volume. Eram ou um ‘’sim’’ dos bichos ou um reclamo do abandono,
mas ela cria no ‘’sim’’.
- Amam a mamãe! Amam a mamãe! Sabia, meus lindinhos
– dizia, tendo os miados altíssimos como resposta ambígua.
As minhas manhãs eram assim, sempre as mesmas
desgraças. Acordava com isso. Até hoje não entendo o porquê um apartamento era
reservado para gatos, sendo que vivemos em um país de sem-teto miseráveis. Vale
lembrar, ela se recusava em pôr o imóvel à venda ou para aluguel. Dona Julieta
nasceu em berço de ouro e, creio eu, para ter lugar no céu, resolveu abrigar
gatos em um apartamento e empregar um doido.
Certo dia, o doido bateu desesperado na minha porta;
e gritava, e berrava. Olhei no olho mágico e vi Edivaldo com as mãos na cabeça.
Resolvi abrir a porta e lhe perguntei o que havia acontecido. Antes que
começasse, pedi que se acalmasse, ofereci um copo d’água e puxei uma cadeira.
Ele suava e tremia... Após cinco minutos sentado, respirando fundo enquanto
valorizava cada gole de água, começou a explicar que, enquanto distribuía as
correspondências debaixo das portas de cada morador, ouviu gritos no
apartamento 403, contíguo ao de um vizinho, Maurício, que era meu único chegado
naquele lugar. Durante o tempo em que Edivaldo ficou se acalmando, recorri a
Maurício, por telefonema, repetindo tudo que Edivaldo havia relatado, e o meu
vizinho, um pouco constrangido, tentou resumir objetivamente o evento do 403:
- São moradores novos, vizinho. Trata-se de
sadomasoquismo.
Expliquei a situação a Edivaldo, que a principio
relutou com a verdade. Mas após a aceitação, passou a andar sempre bem lentamente
pelo andar do apartamento 403, deliciando-se a gargalhadas devido aos gritos e
gemidos, sons de palmadas e pedidos de socorro. Ria o suficiente para que ao
menos dois ouvissem: Deus e o mundo. O demônio do porteiro passou a repetir -
do jeito dele - ‘’sadomasoquismo’’ em todos os contextos, em todas
conversações, tanto públicas quanto íntimas. Cansei de ouvir, de passagem pela
portaria, ele conversando baixinho por telefone com alguma pretendente do outro
lado da linha, em meio a risos maliciosos.
- Quero sardomarroquito hoje, viu ? Danada! Tô no
serviço. Inté mais tarde.
Aos poucos, no entanto, começou a entender a ideia e
implementar o termo metaforicamente. O maluco foi ficando habilidoso. Tanto é
que eu o via enfiar a expressão erótica em conversações diversas, entre amigos,
ao fim do expediente, na calçada da entrada de um famoso bar que ficava
defronte ao prédio. Quando o assunto era futebol e a intenção era depreciar o
time para o qual torcia o debatedor adversário, Edivaldo não perdia tempo...
- Desiste desse time e deixa de ser sardomarroquita,
homi – caçoava do outro.
*
Apesar de localizado no centro da cidade, o prédio
no qual trabalhava o porteiro ficava num bairro um pouco fechado, de rua
deserta, bem arborizada, com ares quase que bucólicos, haja vista a quantidade
de casarões de arquitetura colonial e animais soltos na rua. São elementos que
quando combinados, temos a monotonia. E a monotonia é uma tortura para o ocioso.
Se o vento batia alguma porta, a zoada repercutia diferente por lá, causando
rebuliço no porteiro, que adorava uma zoada diferente, porque surgia ali uma
oportunidade de adrenalina, de especulação e investigação.
Um helicóptero sobrevoando o céu já era suficiente
motivo pra sua gritaria. Saía do seu posto de trabalho correndo pra rua, e
apontava pro alto, e pulava, e começava com as especulações catastróficas. ‘’É
a puliça, deve estar procurando ladrão! Num coloca a cabeça pra fora da janela,
dona Maria, num coloca! Eles vão atirar’’, dizia pessimistamente empolgado com
a suposta chacina que previa. ‘’Eles vão atirar, olha lá o moço com a
metralhadora preta apontando pra cá, vai pra dentro, seu Reinaldo’’,
aconselhava o querido porteiro.
Quinze minutos depois soubemos que se tratava de uma
equipe de reportagem da televisão. A metralhadora era uma câmera de filmagem e
o ladrão procurado era um cavalo que escapou de uma casa e estava no meio de
uma pista, pondo em risco a própria integridade e comprometendo o fluxo do
trânsito. E assim seguia Edivaldo, largando o serviço para que nada escapasse.
E nada escapava, que fosse um móvel caindo no chão, discussões com o tom de voz
um pouco mais alto entre casais ou até mesmo a buzina de automóvel. Absolutamente
tudo o impactava e era assunto para que ele desenvolvesse numa resenha com os
fiscais da vida alheia, sendo que ele era o principal destes. Essa situação me
incomodava e, exatamente por isso, resolvi questionar o querido porteiro:
- Edivaldo! Bom dia... Preciso falar com você.
- Pó falá, seu Marcelo. É pra lavrar o carro do
sinhô? – disse habituado que estava a ser solicitado pelos moradores, que volta
e meia o afastavam do ‘’trabalho’’ para serviços particulares mediante ao pagamento
de uma latinha.
- Não precisa. Vim pedir para que se concentrasse
apenas no seu serviço. Ando notando que perde o foco rapidamente com os
barulhos do entorno. Tudo é motivo para que abandone o seu posto de trabalho e
se perca cuidando da vida dos outros. Não tem medo que ela o coloque no olho da
rua? Vários moradores andam se queixando de não estarem recebendo suas correspondências.
Que cada um cuide de si! E outra, não precisa superestimar qualquer estalo ou barulhinho.
Ele, calado, me ouviu, com os olhos esbugalhados,
atento do início ao fim e, um dia depois, tudo havia mudado. Finalmente me vi
sendo respeitado por ele, que não riu durante essa conversa. Daquele dia em que
conversamos em diante, ele não se demorava no quarto andar, passava próximo ao
403 com espantável naturalidade e, tivesse o grito que fosse, seguia a passos firmes
sem sequer virar a cabeça pra trás. Edivaldo, enfim, parecia ter tomado jeito. Uma
semana depois da nossa conversa, eu o vi, aos risos prendidos e sufocados pela
mão esquerda, com o ouvido colado na porta do 403. Na tarde desse mesmo dia,
ele fez um escândalo porque o conjunto de panelas de uma senhora havia caído do
alto do armário, fazendo um bom barulho. Foi o assunto da tarde dele...
- Ela num tem atenção cás coisa, seu Reinaldo; é distruída
por demais. Parece que caiu tudo... parece que caiu o ramáriu dela também. Acho
que ela caiu junto, viu...Quiáá...Quiáá...Quiáá...Quiáá...Quiáá...Quiááá...
Se algum incidente, no entanto, seguisse da necessidade
do ‘’faz-tudo’’ do edifício apresentar um expediente qualquer, a graça acabava.
Prova disso era quando queimava a lâmpada da área de convivência do prédio, fazendo
com que ele se impactasse com a grande missão que tinha pela frente. Geralmente
pedia pra Maurício resolver e ‘’não contar pra patroa’’.
*
No ano de 2020, estávamos em período de assustadora
agitação política, em um contexto de uma crise sanitária sem precedentes, com
milhares de mortes em razão de uma doença respiratória que se alastrou pelo
país devido à ausência de uma política de racional enfrentamento ao problema
por parte do Estado. Já havia, bem antes das trevas que estávamos enfiados, uma
perigosa e agressiva polarização política. A doença só a potencializou, aliás,
potencializou tudo: da ignorância, ataraxia abúlica e alienação ao ativismo
político, engajamento de setores antes omissos da sociedade e a empatia humana.
Eu estava profundamente envolvido com as três últimas potencializações. Sempre
me envolvi, sempre fui chegado a um motim.
Escrever com a mão direita e chutar a bola no campo
com a perna esquerda – pois quando menino jogava futebol muito bem – denunciava
meu perfil e identidade; inclusive, jogava melhor que escrevia. Quem me via
todo engomado de polo, aparentando um entusiasta das tradições, surpreendia-se
com quem eu era nas ruas para além das camisetas polo e jeito tímido. E apesar
de alguma curiosidade - que nunca existiu suficientemente para que me fizesse a
chegar perto -, nunca quis experimentar o tal do pito do pango, mas achava que
deveria ser descriminalizado. Não fumava, mas defendia o fumo. Que cada um
fizesse o que bem entendesse de suas vidas, sem hipocrisia, ‘’se quiser fumar,
fume, se quiser beber, beba’’. Em suma, o ano de 2020 foi um marco histórico
para a humanidade e não deixou de ser para mim; um ano que potencializou aquele
meu aspecto canhoto dos campos. Lembrando que, nesse mesmo ano, o mundo ficou
menos canhoto com a partida de um gênio Argentino, Diego Armando Maradona.
A partir do mês de Abril desse ano, todos foram
obrigados a transitar pelo edifício Soraya usando máscara no rosto, devido à
presença da tal doença mortífera. Alguns não levavam a situação com a seriedade
que o problema reclamava, porém era a pequena minoria. A grande maioria
respeitava e temia o problema, inclusive o casal do 403, que, segundo Edivaldo,
passou a adotar a máscara até mesmo durante os rituais amorosos. Só Deus sabe
como ele descobriu isso, e é algo que não vem ao caso. Coisas de Edivaldo. O
que importa saber é que, nesse mesmo mês de Abril, uma onda de manifestações
contra o governo tomou conta do país, e eu, é claro, comecei a participar.
Quem prestou atenção, irá lembrar que, no início, eu
acenei sobre o mundo oculto e misterioso do porteiro, mas não dei maiores
esclarecimentos. É, portanto, chegada a hora de fazê-lo. Era uma sexta-feira
ensolarada, quente, que antecedia ao ato político do sábado, e eu estava indo
comprar materiais como tintas, pincéis e cartolinas para elaborar cartazes de
protesto. Não bastava, a mim, ir, precisava fazer, sentir, protagonizar; não me
importava em ser o peão, mas também experimentava ser torre, rei, bispo,
cavalo. Ia avulso, porque não pertencia a agremiações, embora sonhasse e planejasse
pertencer, mas, apesar disso, tinha um senso de coletividade nesses atos que me
fazia sentir partícipe dos agrupamentos, mesmo sem vestir nada, mesmo sem poder
subir no carro e gritar no microfone; para fazê-lo era preciso nome público e
status. Tais impossibilidades, no entanto, não eram fatores limitantes, pois
havia herdado do meu pai o espírito revolucionário. Voltando à sexta-feira
quente... Comprei os materiais de guerra e quando retornava para minha
residência, fui interrompido por ele, na entrada do prédio.
- Preciso da ajuda do sinhô, seu Marcelo – disse-me,
segurando o aparelho celular na mão – Quero ‘viar’ essas foto para uma
sobrinha, mas num dá. Acho que quebrei.
Para ajudar meu querido amigo – que achou que havia
quebrado alguma coisa - natural e mecanicamente fui obrigado a ter acesso ao
aparelho. E, digo-lhes com pesar, que experiência assustadora! Vi o que não
deveria ter visto. Descobri o que não deveria ter descoberto. Desvendei
segredos que não deveriam ser desvendados.
Mas fiz o que era pra ser feito, enviei as tais fotos para a sobrinha e
devolvi o aparelho a ele, ao que me respondeu muito agradecido.
Meu constrangimento só não foi notado por ele,
porque tenho certeza que o meu semblante denunciava para qualquer indivíduo
lúcido o que havia acabado de ver. Não era possível alguém ... alguém
...‘’consumir’’...alguém ... estimar...aquilo. Logo Edivaldo? Tentei apagar
tais visões da minha cabeça como se estivesse limpando meu espírito, mas sem
sucesso.
Na manhã do dia seguinte, horas antes do ato,
passando pela portaria, eu escutei um som estranho que advinha da guarita em
que ficava Edivaldo. Persegui o som e, sem que ele notasse, vi uma cena do
inferno, a qual não conseguirei descrever. Algumas senhoras, moradoras, também
escutaram e se espantaram, mas não perscrutaram como eu. Outros moradores que
passavam pela portaria se entreolhavam assustados, como se perguntando o que
era. Adianto que o som emitido vinha do aparelho celular do porteiro... E
estava alto, muito alto.
- O que é isso?!- gritei, assim que abri a portinha
da guarita.
Edivaldo apenas moveu os olhos, sem sair do lugar
nem demonstrar nervosíssimo ou espanto. Qualquer outro teria se surpreendido
com o flagrante e mesmo se apavorado com o fato de ter o segredo desnudado, mas
ele apenas parou de recrear os olhos no instante em que cheguei e gritei,
guardando – com assustadora tranquilidade - o motivo do seu prazer no bolso
enquanto sorria em minha direção. Riso de malícia, riso de quem não se importava,
de quem não temia a repercussão. Acho que ele não temia nem mesmo a demissão,
haja vista que as relações eram todas viciadas de tão familiares por ali.
Aquela cena surgiu a mim como uma espécie de apresentação do seu novo ‘’eu’ que
acabara de ser revelado, porém não pelo fato em si, e sim pela reação dele, que
sorria porque sabia o que se passava pela minha cabeça.
- Vou pegar o lixo mais tarde, seu Marcelo! Pó deixá,
viu? – disse ao mesmo em que piscava o olho esquerdo para mim.
Um tanto constrangido,
pedi para que ele cuidasse do volume na próxima vez, tendo em vista as caras e
bocas que alguns vizinhos fizeram ao passar por ali. Travestindo um aspecto
mais sério após todo escancaramento, ele mandou um ‘’sim, sinhô’’, porém, é
claro, com um riso cínico marcando a face. Saí dali direto pra casa. Precisava
me aprontar para o ato e superar a cena da manhã.
*
A mania de deixar os preparativos para a última hora
fazia parte do script. Poderia começar a elaborar frases contestadoras uma
semana antes ou mesmo no dia anterior da manifestação, mas a situação
solicitava esse aguardo e precaução, que acabavam virando a ansiedade de ter
que produzir tudo em cima da hora. Ao deixar tudo para a última hora, estaria
atualizado e munido sobre todos os despautérios cometidos pelo governo, que não
dava descanso à população. A cada dia uma manobra, um escândalo, um corte, um
direito a menos, uma fala combativa à democracia. Só por isso eu aguardava e ia
acumulando argumentos, reflexões, frases de efeito, provocações e filosofias, regadas
pela raiva e revolta que se assentavam na nobreza da esperança e do amor. Diria
que a raiva do povo que ia pras ruas era amorosa. A raiva passa a ser um sentimento
nobre quando refletida, bem organizada, artística e criativamente manifestada.
Enquanto elaborava os cartazes, eu ouvia Rap, gênero musical de consumo
obrigatório num país como Brasil. Elaborar os escritos nos cartazes e bandeiras
fortalecia meu corpo; ouvir rap preparava meu espírito, que precisava ser
politicamente animalizado.
Após tudo estar organizado, saí, mas não sem antes
ligar para dois amigos e combinar o ponto de encontro. Um deles era o Adailson,
anarquista e correligionário de um partido político; já o outro, Neviton
Capstrano, menos fervoroso, no entanto tão atuante quanto. Chegamos ao local
marcado. E, meu senhor e minha senhora, quanta gente que havia por lá. Estava de
emocionar ver as ruas tomadas por um mar de insurgentes. Artistas, políticos, religiosos,
esportistas famosos, operários e estudantes, até pessoas em situação de rua
pegavam, com um sorriso largo estampado, as bandeiras, mesmo sem contrapartida
financeira, mesmo sem entender o que estava escrito. As conexões foram pelos
olhares, o grito de esperança unia a todos, todos os segmentos sociais, todas
as classes, todas as religiões e cores.
O ato foi um sucesso. Reverberou internacionalmente
por todos os veículos de imprensa. Voltamos, ao fim dele, pelas ruas, exaustos
e felizes. Rostos suados, manchados de tinta, cartazes recolhidos nas mochilas,
trio elétricos já emudecidos retornando aos pátios Antes de tomarmos a condução
para irmos embora, sentamos na calçada para recuperar as forças.
- Dessa vez ele cai – refletiu alto o anarquista.
- Questão de tempo, retorquiu o menos fervoroso.
- Não arredaremos o pé das ruas até que isso
aconteça – arrematei.
Tomamos a condução, cada um foi para o seu destino.
Assim que cheguei no meu e entrei no prédio, vi o porteiro. Quando comentei com
ele, ainda em êxtase, sobre o ato, notei o ‘’pouco caso’’, certa indiferença.
Era dia de jogo. Edivaldo disse que não sabia da manifestação, mas que ouviu
‘’uns povo gritando alto do outro lado da rua num carro de som’’. Esteve
cuidando dos gatos de Dona Julieta durante a tarde e depois lavou o carro de
alguns moradores, em troca de uma cerveja. Segundo ele, nenhum deles
participou, havendo também muito resmungo pelo ‘’barulho dos povo’’.

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