Olho de vidro.

Sou dos que, se tiver jeito, remendo. Não tinha mais, mas eu insisti em mantê-lo nas vascas da agonia, para que não me fosse preciso apelar para um novo. Recorri então ao meio mais óbvio, fui ao mercado informal localizado a umas quatro quadras daqui. Mostrei-lhes meu lustroso celular preto, com cicatrizes de guerra e sem dois botõezinhos. Eu queria apenas os dois botõezinhos, porque sem eles nada adiantaria ter um celular bonito. Mostrei o problema a um, que delegou a resolução a outro, que iria repetir a terceirização a um outro - que não estava ali. Este, sim, resolveria.

Após 45 minutos, chega o cirurgião de eletrônicos. Lembro de um sujeito carrancudo e muito requisitado, que não fez questão de retribuir meu cumprimento de boa-tarde.

- E aí, grande? - foi o cumprimento.

Seu olho esquerdo era de vidro. Lutei comigo para não mostrar admiração, mas o olho direito me percebeu. O constrangimento só existiu de minha parte, porque ele fez questão de abrir um malandro sorrisão de ouro, para fins de intimidação. Havia um canino e um pré-molar dourados em seu sorriso. Sempre invejei o ar de empoderamento da cultura de rua, imortalizado antigamente em dentes metálicos. Após alguns minutos, ele veio com a solução.

- Aqui é rapidinho.

Mas fez parecido àqueles outros ''delegadores'' de serviço do início. Gritou - com a autoridade de um patente alta - por um, que correu de muito longe à sua direção, e quando chegou logo ofereceu o ouvido para receber a instrução. Este – muito ligeiro –  ouviu o que tinha que ouvir e correu até um senhor gordo que tomava conta de uma banca; após cochichar no ouvido do gordinho, arrepiou caminho para receber mais uma instrução do Olho de Vidro. Recebida, correu novamente, chegando até um moleque de boné vermelho e este, após mais um cochicho, correu também, sumindo das minhas vistas. Foi um corre-corre da peste.

Enquanto esperava, observei aqueles homens trabalhando junto com o Olho de vidro. Ele tinha prepostos que o respeitavam – e eu também; o olhar do Olho de Vidro era sinistro. E toda vez que me olhava, observando a minha insegurança, sorria com ar de malandragem. Sorria também porque sabia que seu olho espelhava todo um histórico de batalhas de quem vive à margem.  E quem as vence, nessas condições sociais, intimida tanto quanto causa admiração.

O jovem de boné vermelho chegou com as peças e as deu ao Olho de Vidro, que rapidamente logrou êxito na operação. Ele me entregou o celular e disse o preço. No caminho, comprei numa banca uma corrente dourada e um relógio prateado, provavelmente falsos. E voltei me sentindo pronto para as batalhas que me adviriam.

Pedro Guimarães.


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