Atentado.

 

Impensável que ao concluir uma das operações mais simples e sobretudo aliviadoras da fisiologia humana, o sujeito deparar-se-ia com um atentado. E tenha em mente, antes de dizê-lo, que não foi qualquer besteira, não, visto que me sinto agora constrangido e com dificuldade para ir ao ponto assim, bem diretamente, preferindo dar essas voltas tão só para ganhar tempo de encontrar as expressões menos inferiores. Mas a verdade é que um rapaz, estando na rua, com a bexiga absurdamente cheia, quis esvaziá-la em um lugar adequado, e o banheiro do shopping pareceu-lhe mais apropriado para este fim naquele momento, apesar da longa distância do ponto onde ele estava até o estabelecimento.

Uma vez que estava no limite de suas resistências, andava com alguma dificuldade, com receio da vergonha pública que a marca infantil nas suas vestes poderia lhe render se não conseguisse se segurar. Mesmo com toda a lentidão no passar, chegou a tempo ao banheiro. Lá, durante o fluxo da eliminação, ele olhava para o teto e sorria, com um ar de vitória e alívio olímpicos, como se tivesse vencido a natureza. Quantos suportariam? Ele pensava que, após essa demonstração de resistência, tinha tudo para dar certo naquele dia, já que tinha tudo para dar errado e não deu.

Apressou-se em ir ao lavatório, primeiramente impregnou suas mãos de sabão, antes de deixá-las molhadas e esfregá-las, e, ao terminar a assepsia, foi em direção ao suporte, afixado na parede, onde ficam disponíveis os lenços de papel para secar as mãos. Foi nesse momento, em que secava suas mãos, que notou algo estranho através da sua visão periférica. Esta lhe indicou, à sua diagonal direita, outro usuário do banheiro como ele, defronte ao mictório, mas que ao invés de ter o corpo posicionado para frente da parede e, por consequência, do mictório, o indivíduo estava inclinado, todo torto, mostrando-se de todo para quem quisesse vê-lo. Ainda que ele não o mirasse, era possível perceber com clareza tal anormalidade nos gestos.

 

 

O usuário em questão, que era idoso, simulava aquele sacolejar característico dos homens quando concluem o ato de urinar, mas esse movimento do velho era interminável, como se o último pingo nunca caísse; e para confirmar a sua má intenção, ele não mirava os seus movimentos, estava de cabeça erguida a encarrar os demais. Diante dessa absurdidade, os outros usuários do banheiro foram se dando, aos poucos, conta da situação...

- Atendado ao pudor! Chamem a polícia! – disse o primeiro usuário, jovem, segurando a mão do filho pequeno, que devia ter uns 9 anos e parecia não entender nada.

- Que absurdo! – berrou o segundo usuário.

- Pervertido desgraçado! – esse terceiro aparentava quase dois metros de altura, de compleição robusta.

E as cóleras foram se ajuntando, tomando corpo, enrobustecendo umas às outras, num movimento agitado de energia densa em que parecia envolvê-los e encorajá-los para além dos gritos diante daquela aberrante circunstância. O rapaz, o único quieto até então, foi, nesse estímulo de manada, também tomado de furor e, a essa altura, tinha chamas nos olhos. Finalmente reagiu:

- Arrastem-no para cá! – apontando pra porta de saída do banheiro.

O terceiro usuário tomou à frente dos demais, apanhou o velho pela gola da camisa com a mão direita, arrastou-o até o lado de fora do banheiro, arremessando-o no chão, onde o pervertido caiu sentado, em frente a uma loja de joias. Logo atrás do homenzarrão, o rapaz e os outros três usuários vieram em comboio, berrando para que todos os frequentadores do shopping tivessem conhecimento da razão pela qual o velho estava tendo aquela reprimenda.

- Atentado ao pudor! Chamem a polícia! Mostrava-se para todos nós, esse vagabundo! – explicou o rapaz a um curioso que lhe questionava o ocorrido – Vai pra cadeia! Doente! – dizia enquanto apontava o indicador para o rosto do criminoso, que já estava de pé, recomposto. Curiosos foram se amontoando ao redor dele e de todos os envolvidos muito rapidamente. Num átimo, dava pra contar umas quinze pessoas.

O próprio rapaz que deu o primeiro comando ainda no banheiro, ao indicar para que o levassem para fora, e que havia acabado de pedir para que acionassem a polícia, foi quem tomou a inciativa de chamá-la. Afastou-se da aglomeração, retirou o celular do bolso, começou a discar com pressa. Enquanto o fazia, ele ouviu o primeiro usuário, que continuava segurando a mão do filho, dizer:

- Você não respeitou uma criança... doente!

Dele veio o primeiro soco, que atingiu violentamente o nariz do senhor, levando-o ao chão. Em seguida, ele se inclinou um pouco na direção do golpeado caído para dar-lhe, agora, mais de pertinho, uma sequência... um, dois, três, quatro, cinco, todos na face já desfigurada e completamente tomada de sangue.

- Papai... para, papai...Coitado! – O garotinho pulou nas costas do pai, suplicando – Para, papai, por favor!

No entanto, já era tarde. O homem parou, mas antes reprimiu a atitude do filho, que gritava ao ver a camisa do pai com marcas de sangue.

- Vamos! Não parem! Pode ser pedófilo.  – gritou uma mulher, bem trajada, que passava pelo local.

Todos atenderam, juntaram-se num mesmo ímpeto mortal. O homem robusto pisoteava com a sola de sua enorme bota o rosto sofrido do idoso caído, e chutava - com toda a força - a cabeça, enquanto ria, delirante, acompanhado pelos demais usuários do banheiro que não paravam de chutar o tronco do homem. Alternavam-se entre eles para que todas as regiões fossem atingidas – cabeça, peito, costas, pernas e braços. O idoso urrava de dor, implorava, em vão, perdão pelo ato. Alguns curiosos aproveitaram para levar alguns de seus pertences. Levaram não só a carteira, mas também seus sapatos, relógio e corrente.

 

 

A cena era horripilante. Aquele soalho lustroso do shopping nunca foi banhado com tanto sangue, e aquele shopping nunca ouviu tantos gritos de agonia e rogos de clemência. Mães e pais que passeavam naquele local, naquele momento, com seus filhos, tampavam - horrorizados - os ouvidos e os olhos dos pequenos.

A cessão de espancamento deu uma trégua quando eles notaram que chutavam um cadáver. Um deles disse que a alma nunca foi tão bem lavada. O rapaz, que se distanciou para fazer a ligação, assistiu a tudo completamente boquiaberto, e continuava segurando o telefone que permanecia colado ao ouvido. Finalmente, alguém o atendeu do outro lado da linha, e ele começou, aos prantos, a explicar o atentado.

 

Pedro Guimarães, 7 de junho, 2022.

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